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Posts Tagged ‘silêncio’

a palavra dele

Lembro-me de quando ele lançou a palavra no meio da sala. Palavra nascida de sua garganta ferida, palavra firme – tão firme que parecia coisa concreta.  E não me surpreendeu o fato de quase todos ali terem acreditado plenamente nele. A palavra nascida de voz maciça causa a impressão de inteireza indissolúvel. Não sei bem se eu, naquele dia, cheguei também a acreditar inteiramente. Só me lembro de que um dia inventei a dúvida. Duvidei porque aprendi a acompanhar o destecer das palavras e percebi que é possível desmanchar as letras. Foi por isso que – mais tarde – capturei a palavra certa que ele lançou e a transformei de infinitos pedacinhos cintilantes. E a ex-palavra dele brilhou miudezas – ela se desfez em múltiplos vagalumes.

Da palavra-corpo, completa e firme, digo que essa é sua deliciosa farsa. É sua forma de se erguer viva e se fazer ouvir.Cabe ao dito dançar corpóreo no momento em que é lançado – a minha palavra, por exemplo, por vezes dança lasciva e seduz ardente e, outras vezes, é coberta por um véu de pudores. Toda palavra tem corpo e toda letra aperta a garganta e fere. Todo dizer é cruel e magnífico: apalpa o ambiente e implora por ser apalpado. Quem já apalpou dizeres sabe que eles se transmutam diversos conforme são acariciados ou arranhados. O dizer que um lança no meio do salão dança despudorado com todos os outros: reinventa-se no toque. Reveste-se inteiro do não-dito e se fantasia das invisibilidades que pairam silenciosas. O dizer não rompe o silêncio – antes, acopla-se a ele: tudo o que é dito se mistura a silêncios mil – silêncios aflitos que fazem tremer a forma. É o silêncio quem destroça a palavra…

Foram essas novas miúdas sabedorias que me levaram a pensar, hoje, naqueles que tomaram a palavra dele como verdade universal. Penso que não se deram conta de que logo a violariam sem querer: e que, não mais dele, ela pertencia a todos e se destinava ao desconhecido toque do vazio…

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"A la rencontre du plaisir" (René Magritte)

"A la rencontre du plaisir" (René Magritte)

03/09/06

Rebeca,

Sei também que não é justo o meu silêncio, apenas não consigo saber se é precipitada a minha fuga. Ouço-a como a uma música – só a melodia, sem letras, palavras ou dizeres. Eu, que me apego a palavras, escrevo a você pra não parecer uma louca que fala sozinha, cheia de vontade e coragem, plena de presença e certeza. Fico às vezes imaginando uma sala repleta de gente e eu tendo que dizer – dizer aquilo que sei, aquilo que me toca, aquilo que me aflige, aquilo que me cura, aquilo que é a resposta. Mas toda resposta que eu desse – preste atenção, querida – não passaria de uma fala inventada,  um modo criativo de dizer o que não poderia ser dito. Jamais. A farsa, querida, sempre a farsa – e tantas vezes direi que minto e que ainda não tenho essa sua desenvoltura, você que é atriz e que pisa nos lugares sempre tão presente como se falasse a verdade. Queria, sim, estar presente como se fosse verdade. Como se eu não fosse toda feita daquela dormência que a gente sente na perna quando fica muito tempo na mesma posição. Aquela coisa que dói muito de tanto não doer. Aquilo que falta.

Rebeca, que silêncio foi aquele que surgiu de repente e que agora está aqui fazendo perigo? Como se eu pensasse que há algo a ser cuidado, uma suave lembrança de quando li O Pequeno Príncipe e toda aquela coisa de cativar. Toda aquela coisa de cativeiro. E eu aqui brincando com as palavras para não precisar dizer o real dessa minha aflição. Que é a aflição de não sorrir o sorriso inventado por você, sem culpa e tão vivo – feito do que as pessoas chamariam de egoísmo. O perigoso e impactante sorriso dos vivos. Provocador. Quase sem querer. Você, Rebeca, sem querer é uma vontade. E eu. Eu todos os dias peço mil perdões pelas asas. Pelo vermelho. Pelo sangue.

(“Quase” é aquilo que eu chamo de “sutileza”? Se for, é bonito, querida. É bonito como borboletas amarelas em meio a flores da mesma cor. Você consegue notá-las?)

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Há alguma coisa no riso, meu bem, que é dança, e dança de salto fino em ritmo de fazer cócegas no dia que não tem graça.

Há alguma coisa no riso, meu bem, que finge, e faz um teatro danado que a gente gosta de ver

(nem sempre).

Há algo no riso que é água, algo no riso que é murro

e há risos feitos de gesso.

***

Tem graça que se pretende, e graça que vem suave. Tem graça, meu bem, tem graça.

Tem graça desesperada e graça de orgasmo e fúria.

Graça  molhada, meu anjo, e graça que dói a seco.

***

Há alguma coisa no riso, amor

que é nossa

Há um pedaço no riso, meu bem,

que morre

Há riso, meu grande amor,

que é triste

Há riso, querido

Há siso

Há coisa no riso, amigo,

que cala.

E todo meu desconcerto é sempre feito de riso.

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