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Posts Tagged ‘Poesia’

do caos ao silêncio

Do louco ela fugiu porque existia

Porque era ela própria desatino

Morreu omissa triste a cada dia

Temendo o desandar de seu destino:

*

“Caos e tempestade, pequei por omissão!

Omissa, permiti calar os fluxos

dos gritos-agonia e do pedido:

Vínculo!

Vínculo é matéria de tecido

é seda, linha, macia, som-do-mundo

.

Ele e sua infância eterna!

O medo era porque criança mata

Sonhei com a menina assassina

e com homem paranoico em farrapos

Ali eu era santa-acolhedora

Aqui eu os temi vivos em mim.

.

Meu sexo era dele e ele meu

Não éramos nem homem nem mulher

Deixei-lhe uma rosa azul e pétala

e ele me entregou sua morada

Corri aflita infeliz sozinha

Pra sempre insana e sempre em discrição.

.

Eu me esqueci,

não da loucura dele,

mas de meus próprios gritos enterrados

da minha antiga pose de rainha

do cortem-lhe a cabeça aos desafetos

Abandonei o que me fazia monstro

e também a generosidade – aquela

que daqui descia aos feixes rumo ao nunca

ao tudo

ao antes

ao sempre

ao que vivia!

.

Amor e paranoia ainda existem:

mas eu me faço reta como pedem.

Pequei por omissão, tenho certeza

no dia em que fingi que não me ouvi!”

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Perdida

Pasma, nasci

assim cambaleante úmida curiosa

olhando para o corpo que não era eu…

Eu, o que era

senão o latejar ruindo flores

aguada arfando no seu precipício?

Eu, queda de você. Cachoeira ardente

de seu corpo-rocha.

Nem mesmo matéria macia,

pétala, pena ou asa;

fui mesmo água-brisa que escorria aos fios

e manto e caos e tornado e girassol…

girávamos crianças faces múltiplas

tremíamos um sexo-descoberta

você nasceu areia; eu, desastre

fizemos seu castelo na montanha

o sono nos tomou feito um milagre

e eu comi seus diamantes santos

*

Nasceu assim

cratera avulsa trêmula roída

ali na infinidade do meu corpo ao longe…

Então me despedi de meu espelho

como se me encontrasse com você.

A todo instante, hoje, eu me procuro

nos reflexos das lanças voadoras

e na brisa que nunca mais voltou…

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Ela. Tenho medo de todos os erros que cometo ao falar dela: tenho medo de que, na tentativa de me permitir atravessar por ela, eu a faça de uma fluidez cômoda. Temo arrancar dela a carne e preenchê-la de poesia inócua, estética adorável pra burguês ver. Porque escrevo do alto de um apartamento. As luzes das múltiplas casas que ela habita iluminam minha noite: eu me aconchego no tormento dela e invento palavras bonitas. Deve ser por isso que faço nela carícias de escape: a morte, a fuga, o atirar-se do terraço: o fim. Eu a finalizo antes que ela me incomode demais: antes que ela machuque minha carne sossegada, carne de meu corpo macio sedentário. Ela, que é nômade. E, sim, suas múltiplas casas são poesia – caso o poeta assim deseje. Mas ela existe: ela é concreta na alegria e na dor de seus movimentos e tremores, no trabalho diário, na casa da patroa, nos braços do amante, no desassossego dos filhos. Ela é concreta quando abandona: ela às vezes é o que chamam de mãe desnaturada – desvirtua a natureza porque se cansa de seus falsos desígnios. Ela, ora vive para seus próprios propósitos, ora se reflete na intenção do outro. Ela é espelho rachado, gorda, bonita, miúda, menina…

Se não deixo de poetizá-la, é porque tenho medo do caminho tedioso-rasgante que ela denuncia. As horas que não passam, a prisão – ela já foi louca, criminosa, ela ainda hoje vive. Quão confortável é acreditar na morte: ela falecida fazendo sua festa-deusa em outro mundo. Ela, mulher. Eu a vi – em carne e sangue e vida e voz – certa vez. Ou tantas vezes, tantas vezes: mesmo nas vezes em que não a reconheci. E sei que sua vida continua, como a minha. Por isso quero fazê-la hoje sem fim. Tecer contínuo de uma vida, ou tantas. Hoje ela não termina… Hoje ela insiste na ferida e diz que minhas soluções fáceis nem chegam a arranhar a teia infinita de que é feita…

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Sem nome

Ícaro é um nome. Haroldo também. Marcos, João, Tiago, Alfredo, tudo são nomes. Guilherme, Luís e Paulo Vitor. Fábio, Fernando, Rafael. Lucas. Anjo Gabriel, e o Abraão. O primeiro homem: Adão.

Mas do meu amante verdadeiro, aquele que comigo acorda e que me conhece inteira, preservo o nome. É importante proteger as coisas caras. Guardá-las onde as feras não podem chegar, as feras devoradoras de nomes. Existem aos montes. Tudo, tudo, tudo – preste bem atenção – tudo o que tem nome um dia morre. Todos os dias eu mato um nome. É inevitável: são feitos para serem mastigados. Moídos, transformados e refeitos. E todos os dias um novo nasce, de mansinho e delicado feito uma flor. Todos os dias eu amo o antigo e o novo, e me deleito nas festas de renovação: sei que as coisas se apagam no acender das luzes da madrugada. Sei que os ventos se mexem vazios no coração das feras. E elas sentem fome. Eu nunca vi uma fera chorar. E o meu amor verdadeiro merece a sutileza das lágrimas, merece um pouco da melancolia de minhas tardes tolas, merece minha fragilidade rósea que cintila baixinho o nome dele. O nome que eu não posso pronunciar. Guardo-lhe o nome, sim, e isso não é pouca coisa. Guardo-lhe o nome porque o mundo é perigoso demais para os nossos desatinos infantis. Guardo-lhe o nome porque somos crianças e eu não quero que nossa infância acabe numa imbecil proibição do amor.

Eu quero o amor permitido: o nosso, sem nome.

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a poesia e o verbo

Enquanto a poesia repousava casta, virgem em sua doçura intocável, o verbo lá fora agonizava inteiro e se fazia louco na palavra vida. Era a minha palavra contra a sua e as nossas palavras a favor do vento. Tudo força disforme alimentando versos crus, ausentes de lirismo santo e plenos de vontade morte. Éramos assim, entregues à vida, ouvindo o tilintar das taças coloridas: um brinde infinito a tudo o que é torto. Morríamos pouco a pouco, sempre um pouquinho. Nascíamos de novo infinitas vezes. Fazíamos coragens que ninguém notava em heroísmos simples de quem se renova. Cá dentro a poesia descansava lírica e se fazia bela em sua perfeição. Lá fora o verbo se fazia estrela e esmagava em fogo nossas sensações. Enquanto a poesia sonhava comigo, o verbo em carne viva inventou você. No dia em que nasci meus olhos eram virgens. Você os devorou e eu, enfim, olhei. Lá dentro era sua alma e meu aconchego. Aqui, em seu sossego, eu pude dormir.

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sossego da palavra

Quando a palavra me pediu um pouco de sossego, nada mais me restou senão olhar. E eu não soube ver. Não soube ver a coisa muda em sua andança errante. Porque, sem nome, a forma perde a forma. E toda a terra se fazia morte. Era o apocalipse vindo a cavalo e o mundo inteiro em galope múltiplo; era uma melodia relinchando feia e todos nós em notas de piano mudo. Tudo oco. E eu, calada tonta em vertigem bêbada. Sem poder cantar minha vontade humana. Fraca no que em mim é gente. Forte feito um animal.  Suplicando que você me desse um soro. Pra me curar dessa doença-bicho…

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Arrepios de comer

arrepio

Se tenho fome? Muita. Fome de vocês. Alimento-me tremendamente até fartar, e sempre falta, como se não houvesse fundo aqui. É tão simples que vocês nem chegam a perceber: nem bem lançam ao mundo um olhar mais lânguido, um sorriso mais frouxo, um medo mais devastador ou uma certa beleza que faz tontear, e cá estou eu, devoradora, iniciando meu ritual pagão. Minha vontade imensa da força inumana de vocês. Do animal que pulsa. Abro-me, pois, à selvageria delicada de devorar momentos. Abocanhar instantes. Comer, comer, comer, e me lambuzar de gente. Toda carinhosa, brincando de oferecer amor, confesso aqui e agora meu egoísmo crônico: minha vontade é sempre a de sugar. O néctar de cada um. E vocês nem notam. É que, por gentileza, sempre deixo de presente um pedacinho de mim. Como num mágico ritual de troca, eu – feiticeira em carne, sangue e espírito – faço uma mistura de nós todos num caldeirão de instantes. E apreendo o agora. Nada mais que o agora. O agora que é um grito solto no infinito. E pára aqui, bem na minha mão. O agora que eu pego e transformo em história. Dou a ele o nome de passado e mastigo, mastigo, mastigo ferozmente com meus caninos afiados, até que fique macio como um anteontem. Todo feito de saudades. Eu faço saudades de vocês, e vocês são muitos. Às vezes lhes esqueço os nomes e as feições. Recordo-me apenas do arrepio intenso que me provocaram. Eu como arrepios. Fazem cócegas na garganta e no coração.

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