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Posts Tagged ‘palavra’

a palavra dele

Lembro-me de quando ele lançou a palavra no meio da sala. Palavra nascida de sua garganta ferida, palavra firme – tão firme que parecia coisa concreta.  E não me surpreendeu o fato de quase todos ali terem acreditado plenamente nele. A palavra nascida de voz maciça causa a impressão de inteireza indissolúvel. Não sei bem se eu, naquele dia, cheguei também a acreditar inteiramente. Só me lembro de que um dia inventei a dúvida. Duvidei porque aprendi a acompanhar o destecer das palavras e percebi que é possível desmanchar as letras. Foi por isso que – mais tarde – capturei a palavra certa que ele lançou e a transformei de infinitos pedacinhos cintilantes. E a ex-palavra dele brilhou miudezas – ela se desfez em múltiplos vagalumes.

Da palavra-corpo, completa e firme, digo que essa é sua deliciosa farsa. É sua forma de se erguer viva e se fazer ouvir.Cabe ao dito dançar corpóreo no momento em que é lançado – a minha palavra, por exemplo, por vezes dança lasciva e seduz ardente e, outras vezes, é coberta por um véu de pudores. Toda palavra tem corpo e toda letra aperta a garganta e fere. Todo dizer é cruel e magnífico: apalpa o ambiente e implora por ser apalpado. Quem já apalpou dizeres sabe que eles se transmutam diversos conforme são acariciados ou arranhados. O dizer que um lança no meio do salão dança despudorado com todos os outros: reinventa-se no toque. Reveste-se inteiro do não-dito e se fantasia das invisibilidades que pairam silenciosas. O dizer não rompe o silêncio – antes, acopla-se a ele: tudo o que é dito se mistura a silêncios mil – silêncios aflitos que fazem tremer a forma. É o silêncio quem destroça a palavra…

Foram essas novas miúdas sabedorias que me levaram a pensar, hoje, naqueles que tomaram a palavra dele como verdade universal. Penso que não se deram conta de que logo a violariam sem querer: e que, não mais dele, ela pertencia a todos e se destinava ao desconhecido toque do vazio…

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sossego da palavra

Quando a palavra me pediu um pouco de sossego, nada mais me restou senão olhar. E eu não soube ver. Não soube ver a coisa muda em sua andança errante. Porque, sem nome, a forma perde a forma. E toda a terra se fazia morte. Era o apocalipse vindo a cavalo e o mundo inteiro em galope múltiplo; era uma melodia relinchando feia e todos nós em notas de piano mudo. Tudo oco. E eu, calada tonta em vertigem bêbada. Sem poder cantar minha vontade humana. Fraca no que em mim é gente. Forte feito um animal.  Suplicando que você me desse um soro. Pra me curar dessa doença-bicho…

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Palavrinhas

Toda palavra minha é muda

Tudo o que eu digo muda

Todo meu sorriso aperta

Querendo se fazer escrito

e certo.

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