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Posts Tagged ‘morte’

Ela. Tenho medo de todos os erros que cometo ao falar dela: tenho medo de que, na tentativa de me permitir atravessar por ela, eu a faça de uma fluidez cômoda. Temo arrancar dela a carne e preenchê-la de poesia inócua, estética adorável pra burguês ver. Porque escrevo do alto de um apartamento. As luzes das múltiplas casas que ela habita iluminam minha noite: eu me aconchego no tormento dela e invento palavras bonitas. Deve ser por isso que faço nela carícias de escape: a morte, a fuga, o atirar-se do terraço: o fim. Eu a finalizo antes que ela me incomode demais: antes que ela machuque minha carne sossegada, carne de meu corpo macio sedentário. Ela, que é nômade. E, sim, suas múltiplas casas são poesia – caso o poeta assim deseje. Mas ela existe: ela é concreta na alegria e na dor de seus movimentos e tremores, no trabalho diário, na casa da patroa, nos braços do amante, no desassossego dos filhos. Ela é concreta quando abandona: ela às vezes é o que chamam de mãe desnaturada – desvirtua a natureza porque se cansa de seus falsos desígnios. Ela, ora vive para seus próprios propósitos, ora se reflete na intenção do outro. Ela é espelho rachado, gorda, bonita, miúda, menina…

Se não deixo de poetizá-la, é porque tenho medo do caminho tedioso-rasgante que ela denuncia. As horas que não passam, a prisão – ela já foi louca, criminosa, ela ainda hoje vive. Quão confortável é acreditar na morte: ela falecida fazendo sua festa-deusa em outro mundo. Ela, mulher. Eu a vi – em carne e sangue e vida e voz – certa vez. Ou tantas vezes, tantas vezes: mesmo nas vezes em que não a reconheci. E sei que sua vida continua, como a minha. Por isso quero fazê-la hoje sem fim. Tecer contínuo de uma vida, ou tantas. Hoje ela não termina… Hoje ela insiste na ferida e diz que minhas soluções fáceis nem chegam a arranhar a teia infinita de que é feita…

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Joana

Iansã

Foi a morte quem se aconchegou suave nos braços de Joana.  Eu não queria que isso fosse triste assim – na verdade, nem sei se foi… Ou… Oh, sim: foi. Foi triste porque ninguém se deu ao trabalho de conhecer Joana. Ninguém se deu ao trabalho de saber – enquanto ela estava viva – o que ela pensava da vida. Os filhos partiram porque nada mais queriam ali: já podiam comer e se vestir sozinhos. E Joana nunca havia sido muito boa na cozinha. Teve também um marido – mas o marido nunca esteve ali. Aliás, ninguém havia estado: e, para nosso espanto, Joana dava graças ao Deus no qual havia parado de acreditar depois da décima terceira dor insuportável e incurável que o dia-a-dia havia lhe proporcionado. Fazia muito tempo que havia se feito descrente, mas ela não conseguiu perder o hábito: Deus era, então, nada mais que uma palavra que saía amolecida de sua boca macia. Joana, que era macia, agradecia ao Deus-pura-palavra por cada solidão: cada solidão a libertava um pouco, embora ela não soubesse bem o que fazer com a liberdade. Todas as companhias eram grades e Joana tinha muito medo de amar gradeada – amar aquele aperto imundo que era o mundo que em torno dela se construía. Joana perdeu o emprego – ou, antes, abandonou-o. Ela não soube ser suficientemente servil; na verdade, Joana não quis. Ela queria que alguém compreendesse a inteligência intensa que a tornava inapta para a servidão – ela, em verdade, queria banir do mundo a servidão: mas era invisível. Joana-ninguém, Joana-macia, Joana-sábia: Joana sabia! Sabia de tudo isso, mas seus gritos eram em vão: eram gritos loucos de quem não sabe ler.  Por isso digo que isso era triste: também eu não ouvi Joana. Também eu não conheci Joana. Nem sei como agora me sinto apta para escrever sobre ela – deve ser o tolo hábito que cultivam os “letrados”, hábito de falar pelos outros. Mas não quero falar por Joana: antes, escolho Joana para habitar meu corpo e me atravessar: quero que ela domine minha voz – domine poderosa. Quero: eu peço que ela, abraçada pela morte, faça-se espírito – espírito cravado em minha carne: Joana, meu bem, eu hoje quero acreditar em um Deus que ponha seu espírito em mim.

***

Joana não veio: era preciso que eu me desfizesse para fazê-la viva em mim. Que se abrissem meus poros: flores receptáculos: que recebessem Joana-macia, ela que conheceu a morte. Morte que foi, curiosamente e ao contrário do que acreditamos, uma loucura-bailarina. A morte era menina. Gargalhava leve e tinha asas. Aconchegou-se em Joana e pediu silêncio – o silêncio-espaço para o vazio delicioso de seu riso. Joana prontamente obedeceu: o silêncio e a solidão eram suas mais belas liberdades. Abraçando a menina, Joana desfaleceu de um novo amor, um amor que ela não teve a quem contar – e faleceu ainda jovem. Deixou seus rastros, mas ninguém notou. Deixou seus rastros como todos nós deixamos: no infinito vazio e anônimo e invisível. Ela deixou uma história desenhada…  Joana pólen, vento, semente. Joana macia mulher. Joana que foi a história não contada: o desconhecido de si. Foi história de espaços que não conheceu – espaços de mundos que não visitou, mas que a ela pertenciam. Joana desejante, estrela, arranhada de dor concreta e lançando seu olhar ao inatingível – enquanto tocava, desajeitada, tudo o que a atingia… Joana em meus poros em mim transpirada: ela, mulher outra que não eu – porque calhou de minha alma cair aqui e não lá. Isso se almas existem… Mas quero acreditar na alma de Joana: e na Deusa que dela escapou…

 

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que fosse diferente

Que fosse diferente, que pudesse ser de outro jeito. Mas não foi. Que ela não houvesse escrito a última carta nem despencado terraço abaixo. Que eles não tivessem vindo abarrotados de perguntas e opiniões, prontos para despejá-las aqui, bem aqui onde tudo deveria estar se preparando para o silêncio. O silêncio que ela merecia. As coisas dela. Sempre amontoadas. E aquele retrato lindo que ela gostava de mostrar quando se sentia feliz. E que escondia envergonhada quando tinha medo. E diziam que ela deveria ter tomado os remédios, diziam que mais dia menos dia isso viria a acontecer. Porque ela se cuidava mal, porque não se acreditava doente, porque ela debochava de quem tentava colocar amarras em sua vida. Diziam também que ela deveria ter obedecido. O pai falou, era a coisa certa a se fazer. O rapaz era bom e o casamento valeria à pena. Contavam que ela levava uma vida errada. Que namorava errado. Que morreria sozinha. Completamente sozinha. As roupas também eram erradas, acho. Os cabelos curtos. Creio que também era errada a clareza com que dizia as coisas; a delicadeza, a inteligência: tanto erro em sua estranha sofisticação e em seus exageros. Ela gostava de música e de matemática. Era errado que encantasse profundamente, sendo assim tão errada. Estava errado seu trabalho, estava errado seu amor, estava errado seu destino. Era inteiramente errada sua vontade: tanta! Estava tudo tão, tão errado que era inevitável que sofresse. E eles, abarrotados de opiniões, vomitaram-nas disfarçando a cruel alegria de quem se crê certo: “sofria, pobrezinha, porque vida assim não se leva, não se pode levar”. Não sei. Ninguém contou de fato. Éramos, talvez, crianças demais para entender que tipo de vida era esse. Mas ela – ela sempre nos pareceu feliz. Não deveria ter sido assim. Mas foi.

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Pedi aos céus que os cavalos não me despertassem de madrugada, mas eles vieram aos galopes desbravando chãos, mergulhando na infinidade do mato aí fora para trazer notícias suas, Ícaro. Era uma carta em letras estranhas e incompreensíveis e eu bem soube que anunciava a sua morte. Só porque você é homem. Eu tremi, tremi, tremi assim inteira de horror. Feito uma viúva assassina, solitária, perversa, aquela que deseja os cavalos e despreza os homens, aquela que sonha com galopes na infinita noite e não sabe repousar. Viúva má, viúva negra, aranha tecendo uma infinita teia de morte. Eu tive um pouco de pena, Ícaro. Porque era uma paz olharmos juntos para o mar. E eram boas suas carícias virgens. Eu acho que você era meu marido e eu não sabia. Acho que voávamos juntos enquanto eu dormia e sonhava. Você costumava me levar em passeios-sonhos e me ensinar sobre as coisas do mundo. Você e sua ciência, Ícaro. Sua sabedoria toda. E eu só pedindo aos céus que os cavalos não me despertassem. Porque eu sabia que trariam notícias suas. Sabia que seriam notícias más. Eu conhecia bem a sua morte, Ícaro, na palma da sua mão. Nasci cigana, já lhe contei? Pois bem: eu temia a sua morte e o meu grito de liberdade. Eu temia a minha fera livre que se faria matagal quando você se fosse. Você sempre me segurou, Ícaro. Você voava e deixava meus pés no chão. E nunca compreendeu que o vôo feminino é fúria. Que fêmea que voa é fera. Sou sua águia, Ícaro de meu coração. Assisto aqui do alto ao seu enterro santo. Ao nosso amor perfeito. Eu fugi com os cavalos, sabia?

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Dolores

Conta-se que, depois de morta, seus cabelos viraram matagal cantante, orquestra insana de melodias fúnebres. Eram comuns essas lendas na região. Lendas de cabelos vivos. Mato, serpente, madeixas de medusa. Era nos desalinhos da loucura que ela caminhava. Desalinhada, cabelos molhados, frágil em berros e assovios. Parecia uma lenda de terror, da dama torta que perfurava as noites com seus uivos tristes. Da noiva abandonada, morta de ciúmes e vingança.

Fosse o que fosse, sempre me importou mais quem ela era quando viva. Corda de violino frouxa. Rouca. Suave. Inventora única de movimentos longos. Bailarina louca. De pernas abertas e corpo úmido. Escancarando os nomes de todos os santos. Filha de ninguém e mãe de todos. Louca de pedra. De pedras preciosas coloridas. Toda vez causava um pouco de medo. No desalinho de seus cabelos longos. Infinitamente longos. Suas tranças de rapunzel onde ninguém subia. Seu destino em baque no chão de concreto. Mais do que bela: mulher. Sangrando tranquila. Das saudades tranquilas de nunca mais ter as mãos cheirando a sabão de coco. Mudando de vida assim de repente. Voando profunda num infinito nunca. Desabava inteira nas linhas do tempo. Era o fantasminha da região. O uivo de medusa na escuridão. Era a lenda feita pra expiar pecados. Santa, em sacrifício, morreu pela vida. Amaldiçoada, mas sem se queixar.

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