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Posts Tagged ‘loucura’

do caos ao silêncio

Do louco ela fugiu porque existia

Porque era ela própria desatino

Morreu omissa triste a cada dia

Temendo o desandar de seu destino:

*

“Caos e tempestade, pequei por omissão!

Omissa, permiti calar os fluxos

dos gritos-agonia e do pedido:

Vínculo!

Vínculo é matéria de tecido

é seda, linha, macia, som-do-mundo

.

Ele e sua infância eterna!

O medo era porque criança mata

Sonhei com a menina assassina

e com homem paranoico em farrapos

Ali eu era santa-acolhedora

Aqui eu os temi vivos em mim.

.

Meu sexo era dele e ele meu

Não éramos nem homem nem mulher

Deixei-lhe uma rosa azul e pétala

e ele me entregou sua morada

Corri aflita infeliz sozinha

Pra sempre insana e sempre em discrição.

.

Eu me esqueci,

não da loucura dele,

mas de meus próprios gritos enterrados

da minha antiga pose de rainha

do cortem-lhe a cabeça aos desafetos

Abandonei o que me fazia monstro

e também a generosidade – aquela

que daqui descia aos feixes rumo ao nunca

ao tudo

ao antes

ao sempre

ao que vivia!

.

Amor e paranoia ainda existem:

mas eu me faço reta como pedem.

Pequei por omissão, tenho certeza

no dia em que fingi que não me ouvi!”

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Querida,

Tão escassos têm sido nossos encontros que acabo por me esquecer do ponto em que estávamos na última carta. Então, resignada, inicio apalpando palavras novas que brotam de mim em direção a você. Hoje elas me contam um segredo perigoso: dizem que todos os dias inventam a histérica para calar a mulher. Inventam enfermidade nas paralisias vibrantes, nos vômitos coloridos, nos suores deliciosos e em todo e qualquer grito. Histeria que aparece como exagero: vitimização: farsa. Histeria funda e infinita que é o silêncio imposto à sabedoria fêmea…

Digo loucuras? Pois sim, querida. E você bem me conhece. Você me anoitece e grita em sonhos: e eu sou aquela que absorve seus gritos até uma quase-surdez. Seria possível não enlouquecer assim? E, não: não me ressinto. Muito pelo contrário, amo o nosso generoso gesto de perturbar mundos internos e inventar avessos. Por isso despejo sem medo a minha loucura em você: e exalto a histérica e todo o seu teatro. Louvo sua coreografia dramática, minha querida atriz. Não porque você tenha nascido para o drama, mas porque assim foi construída, enquanto criava passos ousados no mesmo drama que lhe foi forçado – forçado doloroso como a “verdade” de uma natureza que jamais foi sua. Você engoliu amargos, minha linda, e vomitou cintilâncias. E todos aqueles tremores denunciavam a impossibilidade de se viver em meio àquelas grades quase gentis que a inventavam “feminina”. Não louvo sua feminilidade sacra, que nem é realmente sua. Insisto em trazer oferendas à sua histeria doença que conta segredos das doenças lá de fora – aquelas que nos lanceam afiadas.

Afirmo, querida, que amo o seu grito e venero tudo aquilo que chamam de enfermidade: eu idolatro a sua voz, que também é minha. Voz que nasce rasgante e clama por transformações…

Amo você, trêmula assim. E, se um dia parar de tremer, ainda assim será infinito o meu amor.

Ternura fêmea desaguando larvas,

Rebeca

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Aí mesmo, aí onde você está. Eu vejo seu risco louco, seu traço lindo, seu sonho-macho. Acredito em sua dor e em seu poder e digo: “Deus!”, e você me cura. Aí mesmo onde você está, preso fora das grades, pedindo para entrar. Eu peço: “Não entre!” Que ao deus é exigido que fique fora. À loucura, que evite a tentação e seja dor. Mas eu tento. E de tentar eu me misturo a você, eu peco ao ser um pouco deus, e um deus errado. Não entre, amigo. Você, que é subversão do meu corpo, você que é torto, você que não exala as mesmas melodias douradas que eu aprendi a soprar, você que é vida, vida, vida. Você arde defumadamente insano. Estala o coração em abandono. Pede colo em palhaçada errante. Você palhaço, louco, santo. Em sua pele escura extensa viva, em sua história longa forte hoje, em seu olhar denúncia peso fúria. Você homem-mulher a abocanhar serpentes. Viril mordendo flores no sobrado. Pedindo meu amor lá na sacada. Me peça mais um pouco de segredo. Que eu seja mais um tanto sua santa. Me ensine a amar errado toda torta. Porque a vida certa não distrai. E eu finjo.

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