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Posts Tagged ‘fim’

Ela. Tenho medo de todos os erros que cometo ao falar dela: tenho medo de que, na tentativa de me permitir atravessar por ela, eu a faça de uma fluidez cômoda. Temo arrancar dela a carne e preenchê-la de poesia inócua, estética adorável pra burguês ver. Porque escrevo do alto de um apartamento. As luzes das múltiplas casas que ela habita iluminam minha noite: eu me aconchego no tormento dela e invento palavras bonitas. Deve ser por isso que faço nela carícias de escape: a morte, a fuga, o atirar-se do terraço: o fim. Eu a finalizo antes que ela me incomode demais: antes que ela machuque minha carne sossegada, carne de meu corpo macio sedentário. Ela, que é nômade. E, sim, suas múltiplas casas são poesia – caso o poeta assim deseje. Mas ela existe: ela é concreta na alegria e na dor de seus movimentos e tremores, no trabalho diário, na casa da patroa, nos braços do amante, no desassossego dos filhos. Ela é concreta quando abandona: ela às vezes é o que chamam de mãe desnaturada – desvirtua a natureza porque se cansa de seus falsos desígnios. Ela, ora vive para seus próprios propósitos, ora se reflete na intenção do outro. Ela é espelho rachado, gorda, bonita, miúda, menina…

Se não deixo de poetizá-la, é porque tenho medo do caminho tedioso-rasgante que ela denuncia. As horas que não passam, a prisão – ela já foi louca, criminosa, ela ainda hoje vive. Quão confortável é acreditar na morte: ela falecida fazendo sua festa-deusa em outro mundo. Ela, mulher. Eu a vi – em carne e sangue e vida e voz – certa vez. Ou tantas vezes, tantas vezes: mesmo nas vezes em que não a reconheci. E sei que sua vida continua, como a minha. Por isso quero fazê-la hoje sem fim. Tecer contínuo de uma vida, ou tantas. Hoje ela não termina… Hoje ela insiste na ferida e diz que minhas soluções fáceis nem chegam a arranhar a teia infinita de que é feita…

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Infinito

O infinito nasce no meio. Não se importa – como nós, por vezes, nos importamos – com a existência do princípio ou do fim. O infinito não tem princípios e, se um dia tudo acaba, ele não toma conhecimento. Ele se espalha sem pudores, lá e cá, balança o mundo nas eternidades horizontais e no sem-fim de tudo o que é transversal. Abdica de qualquer curiosidade sobre o fim da estrada: o infinito é aquilo que corta o caminho pela mata escura, faz trilhas na floresta proibida e, inevitavelmente, arrisca um voo – ou muitos. Também sabe desbravar cavernas, lençóis d´água submersos: o infinito submerge. E emerge. Há tanto, tanto, tanto a ser apreciado no meio – a infinidade entre nós, espaços vazios que recebem de bom grado múltiplas vontades – que o dono das histórias eternas sabe da futilidade que é tentar descobrir as tolas marcações de uma linha do tempo. Atravessam a linha, essas infinidades. Desenham o destino do rei, mas também da solitária assassina faminta – que, abandonada à própria sorte, aspirou odores e sabores da cidade. Ela, que fez do destino a doença, que amanheceu ao lado de um mal-feitor e que abandonou crianças. Crianças que ouviram as melodias dos passarinhos e cresceram fora da linha – porque não havia estrada. E o infinito acaricia os passarinhos, as aranhas, acaricia o cão sem dono e todas as baratas do subsolo. Jamais teme o subsolo, assim como não despreza as alturas. E salta: o infinito vive aos pulos. Na retidão da história do casal, ele se embala no calor dos amantes fortuitos e abraça as estripulias dos filhos. Conta do frio de quem dorme nas ruas e das asas da mulher que escapou. Visita hospícios, cadeias e mundos desconhecidos: faz festa a tudo o que a cidade ignora: a cidade que agora se crê reta e limpa. O infinito não é asséptico. Conhece os ódios, suores e vontades. Sabe que o desejo se produz aos ramos – e que não há limites para as ramificações. O infinito está aqui – em todo invisível que entre nós respira: ânsia de se erguer intenso. E nunca se cansa.

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E tudo isso porque você. Ou era eu? Não sei bem, não consigo me lembrar. Só me recordo de ter quase morrido apaixonada em meio aos livros que você trouxe de viagem. Você era o Pai – o Dono do Conhecimento. E eu ali, sedenta. Absurdamente sedenta. Era tanta, tanta sede, que eu chegava a ruborizar. Vermelho era o desejo de desbravar mundos, vermelha era a minha vergonha. Mas eu não sabia disso na época. É hoje que invento essa imagem de infância, essa imagem de cores fortes e apaixonantes, esse quadro que já aos poucos parecia desenhar a mulher que se ergueria triunfante. Não houve triunfo, isso está claro. Nem sei se houve guerra. Parece que por vezes me vi na vil condição de matadora; também algumas vezes devo ter morrido. Tanto que hoje minhas mãos estão verdes como as águas do mar e eu me sinto ora sereia, ora defunta. É fundo. E tudo isso por causa daquela história mal terminada. Sim, reconheço que grande parte das histórias não têm fim – não porque duram eternidades, mas porque são contadas aos pedaços. Toda história é fragmento de um mundo que não existe: é fragmento de um vir-a-ser que só se tornou, de fato, em partes. Esses meus retalhos dançam feito belezinhas que montam um vestido que eu nunca tive. Vestido de boneca de pano estraçalhável – e que depois pode ser consertada com paninhos novos. Eu e minha crença de ser de porcelana – ou cristal. Coisa sem conserto. Já me quebrei infinitas vezes e ainda acho dolorido afirmar essa perigosa possibilidade do remendo. Do pedacinho de vir-a-ser que se une ao que já é e monta uma nova, feia e adorável existência. Tive medo da feiúra da existência como tantas mulheres aprendem a ter medo da velhice. Por isso evitei os sustos que me provocariam rugas. E também tremi diante das histórias mal terminadas, sufoquei de desespero diante da vontade que não dizia a que vinha. Mas eu amava os livros: tenho certeza. Pode ser essa uma lembrança inventada de uma infância minha que desenho agora: mas assim foi, se assim desejo. Amava o toque delicado do conhecimento novo, o suave roçar das letras, amava o sexo em seu princípio e fim: mas era o meu silêncio e ninguém tinha o direito de invadir. E sempre fui precavida: sempre soube que há aqueles que acham que quem desatina de amor deve, obrigatoriamente, amar tudo o que existe. E só me valia amar o que me apetecia: era um olhar que dançava mundo afora buscando prazeres e oferecendo uma ou outra ternura a quem parecesse merecedor. Repito que não sei se foi assim: mas hoje é. Hoje desenho a criança parida pela mulher que sou.

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