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Joana

Iansã

Foi a morte quem se aconchegou suave nos braços de Joana.  Eu não queria que isso fosse triste assim – na verdade, nem sei se foi… Ou… Oh, sim: foi. Foi triste porque ninguém se deu ao trabalho de conhecer Joana. Ninguém se deu ao trabalho de saber – enquanto ela estava viva – o que ela pensava da vida. Os filhos partiram porque nada mais queriam ali: já podiam comer e se vestir sozinhos. E Joana nunca havia sido muito boa na cozinha. Teve também um marido – mas o marido nunca esteve ali. Aliás, ninguém havia estado: e, para nosso espanto, Joana dava graças ao Deus no qual havia parado de acreditar depois da décima terceira dor insuportável e incurável que o dia-a-dia havia lhe proporcionado. Fazia muito tempo que havia se feito descrente, mas ela não conseguiu perder o hábito: Deus era, então, nada mais que uma palavra que saía amolecida de sua boca macia. Joana, que era macia, agradecia ao Deus-pura-palavra por cada solidão: cada solidão a libertava um pouco, embora ela não soubesse bem o que fazer com a liberdade. Todas as companhias eram grades e Joana tinha muito medo de amar gradeada – amar aquele aperto imundo que era o mundo que em torno dela se construía. Joana perdeu o emprego – ou, antes, abandonou-o. Ela não soube ser suficientemente servil; na verdade, Joana não quis. Ela queria que alguém compreendesse a inteligência intensa que a tornava inapta para a servidão – ela, em verdade, queria banir do mundo a servidão: mas era invisível. Joana-ninguém, Joana-macia, Joana-sábia: Joana sabia! Sabia de tudo isso, mas seus gritos eram em vão: eram gritos loucos de quem não sabe ler.  Por isso digo que isso era triste: também eu não ouvi Joana. Também eu não conheci Joana. Nem sei como agora me sinto apta para escrever sobre ela – deve ser o tolo hábito que cultivam os “letrados”, hábito de falar pelos outros. Mas não quero falar por Joana: antes, escolho Joana para habitar meu corpo e me atravessar: quero que ela domine minha voz – domine poderosa. Quero: eu peço que ela, abraçada pela morte, faça-se espírito – espírito cravado em minha carne: Joana, meu bem, eu hoje quero acreditar em um Deus que ponha seu espírito em mim.

***

Joana não veio: era preciso que eu me desfizesse para fazê-la viva em mim. Que se abrissem meus poros: flores receptáculos: que recebessem Joana-macia, ela que conheceu a morte. Morte que foi, curiosamente e ao contrário do que acreditamos, uma loucura-bailarina. A morte era menina. Gargalhava leve e tinha asas. Aconchegou-se em Joana e pediu silêncio – o silêncio-espaço para o vazio delicioso de seu riso. Joana prontamente obedeceu: o silêncio e a solidão eram suas mais belas liberdades. Abraçando a menina, Joana desfaleceu de um novo amor, um amor que ela não teve a quem contar – e faleceu ainda jovem. Deixou seus rastros, mas ninguém notou. Deixou seus rastros como todos nós deixamos: no infinito vazio e anônimo e invisível. Ela deixou uma história desenhada…  Joana pólen, vento, semente. Joana macia mulher. Joana que foi a história não contada: o desconhecido de si. Foi história de espaços que não conheceu – espaços de mundos que não visitou, mas que a ela pertenciam. Joana desejante, estrela, arranhada de dor concreta e lançando seu olhar ao inatingível – enquanto tocava, desajeitada, tudo o que a atingia… Joana em meus poros em mim transpirada: ela, mulher outra que não eu – porque calhou de minha alma cair aqui e não lá. Isso se almas existem… Mas quero acreditar na alma de Joana: e na Deusa que dela escapou…

 

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Infinito

O infinito nasce no meio. Não se importa – como nós, por vezes, nos importamos – com a existência do princípio ou do fim. O infinito não tem princípios e, se um dia tudo acaba, ele não toma conhecimento. Ele se espalha sem pudores, lá e cá, balança o mundo nas eternidades horizontais e no sem-fim de tudo o que é transversal. Abdica de qualquer curiosidade sobre o fim da estrada: o infinito é aquilo que corta o caminho pela mata escura, faz trilhas na floresta proibida e, inevitavelmente, arrisca um voo – ou muitos. Também sabe desbravar cavernas, lençóis d´água submersos: o infinito submerge. E emerge. Há tanto, tanto, tanto a ser apreciado no meio – a infinidade entre nós, espaços vazios que recebem de bom grado múltiplas vontades – que o dono das histórias eternas sabe da futilidade que é tentar descobrir as tolas marcações de uma linha do tempo. Atravessam a linha, essas infinidades. Desenham o destino do rei, mas também da solitária assassina faminta – que, abandonada à própria sorte, aspirou odores e sabores da cidade. Ela, que fez do destino a doença, que amanheceu ao lado de um mal-feitor e que abandonou crianças. Crianças que ouviram as melodias dos passarinhos e cresceram fora da linha – porque não havia estrada. E o infinito acaricia os passarinhos, as aranhas, acaricia o cão sem dono e todas as baratas do subsolo. Jamais teme o subsolo, assim como não despreza as alturas. E salta: o infinito vive aos pulos. Na retidão da história do casal, ele se embala no calor dos amantes fortuitos e abraça as estripulias dos filhos. Conta do frio de quem dorme nas ruas e das asas da mulher que escapou. Visita hospícios, cadeias e mundos desconhecidos: faz festa a tudo o que a cidade ignora: a cidade que agora se crê reta e limpa. O infinito não é asséptico. Conhece os ódios, suores e vontades. Sabe que o desejo se produz aos ramos – e que não há limites para as ramificações. O infinito está aqui – em todo invisível que entre nós respira: ânsia de se erguer intenso. E nunca se cansa.

E tudo isso porque você. Ou era eu? Não sei bem, não consigo me lembrar. Só me recordo de ter quase morrido apaixonada em meio aos livros que você trouxe de viagem. Você era o Pai – o Dono do Conhecimento. E eu ali, sedenta. Absurdamente sedenta. Era tanta, tanta sede, que eu chegava a ruborizar. Vermelho era o desejo de desbravar mundos, vermelha era a minha vergonha. Mas eu não sabia disso na época. É hoje que invento essa imagem de infância, essa imagem de cores fortes e apaixonantes, esse quadro que já aos poucos parecia desenhar a mulher que se ergueria triunfante. Não houve triunfo, isso está claro. Nem sei se houve guerra. Parece que por vezes me vi na vil condição de matadora; também algumas vezes devo ter morrido. Tanto que hoje minhas mãos estão verdes como as águas do mar e eu me sinto ora sereia, ora defunta. É fundo. E tudo isso por causa daquela história mal terminada. Sim, reconheço que grande parte das histórias não têm fim – não porque duram eternidades, mas porque são contadas aos pedaços. Toda história é fragmento de um mundo que não existe: é fragmento de um vir-a-ser que só se tornou, de fato, em partes. Esses meus retalhos dançam feito belezinhas que montam um vestido que eu nunca tive. Vestido de boneca de pano estraçalhável – e que depois pode ser consertada com paninhos novos. Eu e minha crença de ser de porcelana – ou cristal. Coisa sem conserto. Já me quebrei infinitas vezes e ainda acho dolorido afirmar essa perigosa possibilidade do remendo. Do pedacinho de vir-a-ser que se une ao que já é e monta uma nova, feia e adorável existência. Tive medo da feiúra da existência como tantas mulheres aprendem a ter medo da velhice. Por isso evitei os sustos que me provocariam rugas. E também tremi diante das histórias mal terminadas, sufoquei de desespero diante da vontade que não dizia a que vinha. Mas eu amava os livros: tenho certeza. Pode ser essa uma lembrança inventada de uma infância minha que desenho agora: mas assim foi, se assim desejo. Amava o toque delicado do conhecimento novo, o suave roçar das letras, amava o sexo em seu princípio e fim: mas era o meu silêncio e ninguém tinha o direito de invadir. E sempre fui precavida: sempre soube que há aqueles que acham que quem desatina de amor deve, obrigatoriamente, amar tudo o que existe. E só me valia amar o que me apetecia: era um olhar que dançava mundo afora buscando prazeres e oferecendo uma ou outra ternura a quem parecesse merecedor. Repito que não sei se foi assim: mas hoje é. Hoje desenho a criança parida pela mulher que sou.

Desencontrada

O que aconteceu foi um resguardo mal-guardado. Um arrepio de força foi o suficiente para que saísse em disparada. Livre, louca, as pernas bambas tortas soltas – soltou-se em um grito, e correu, correu, correu. Correu fugindo do Pai, do Filho e do Espírito Maldito que a visitava insistentemente, que a abandonava infinitamente, que a buscava violentamente. Correu porque lhe foi possível correr: ela fazia apenas o que lhe parecia perfeitamente possível, desde sempre. Correu porque suas pernas permitiram – mais: porque suas pernas convidaram. Porque suas pernas aflitas marcadas queriam mais: almejavam o impossível. E ela, cabecinha temerosa, insistiu no possível que lhe foi oferecido pelas pernas. Ela era a cabeça, ou ao menos assim pensava – e acreditava que o corpo era apenas uma quase descartável parte dela. Não se percebia inteira: era feita em pedaços de coisas que, ora a definiam, ora a ela pertenciam. E gostava de achar que obedecia à razão, parte que – tinha quase certeza – a definia humana. Mas, naquele instante, o corpo havia se rebelado. Contra o resguardo, contra o destino traçado: contra a ditadura das possibilidades. Insistia no impossível.

As pernas estavam tão, tão vigorosas, que nada lhe restou senão acompanhá-las desenfreada. As mesmas pernas que o outro certa vez abriu sem que ela, cabeça, desejasse; sem que elas, as próprias pernas, concedessem. Aliás, quanta incerteza lhe causariam as lembranças, caso tivesse tempo – na correria – de recordar. Perguntaria-se  quem, naquele violento então, havia sido sua vontade, sua dona, sua verdade: quem? Quem, se nem a razão nem o corpo haviam desejado? Porque ao outro tantas vezes havia pertencido: tantas vezes do Pai, do Filho e do Espírito havia sido. Tantas vezes havia tomado como necessária doce violência do cotidiano: porque era para o seu bem. E as violências explícitas, por serem íntimas, quase sempre lhe pareceram naturais: simples falhas do outro em acessos de raiva, angústia ou bebedeira. Perdoava: sempre boa, sempre gentil, sempre perdoava. Era como se para isso houvesse nascido: anjo benevolente. A razão – sabe-se lá se era razão – ensinava-lhe as glórias do amor e da doação. Dava-se, dava-se, dava-se em cada pedacinho; dava-se mesmo quando a oferenda implicava na perda de uma pequena preciosidade. Perdia preciosidades – de quem? – e doía. E agora perdia-se. Perdia-se enquanto corria: perdiam-se as pernas vigorosas nos pensamentos circulantes. Perdia-se cabeça, perdia-se corpo inteiro. Notava agora que, não: nem seu corpo nem sua cabeça haviam sido seus donos até então: havia se construído como frágil inexistência que só se dava conta de ali estar quando sentia dor. Ela, que nada havia sido senão. Senão? Ela, que finalmente fugiu do resguardo e não guardou coisa alguma. Nada ali lhe pertencia – apenas ela havia sido pertence. Correu da vida; não de toda a vida: daquela. Correu até o precipício como se fosse voar. Alçou voo no até amanhã e mergulhou inteira onde não puderam saber…

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Nunca mais tiveram notícias. E nunca mais valeu à pena ouvir o que falavam dela: eles nada sabiam. Não conheciam o vigor de suas pernas nem a delicadeza com que seu pensamento – quase sem que ela própria se desse conta – havia durante aquela vida inteira trabalhado na invenção de uma nova vida. Apenas em um ponto eles tinham razão: ela era uma perdida; e só os desencontrados são capazes de romper correntes.

Antes da guerra…

quinta-feira, 27 de março de 2008

O amor é o único lugar do mundo onde se é. E digo isso mesmo quando duvido. Então, acenda uma vela e chore, meu bem. Frágil assim. É o que nos resta, sempre. A fragilidade, aquela. O resto é essa vida aqui fora: difícil e reta. Eu não sou outra a não ser aquela que preciso ser. Vagando feito gente sóbria. Eu, a ébria: veja quanta loucura tudo isso. Nunca pensei, nunca pensei.

Mas a vida era fácil, querido. Antes da guerra. Eram flores no vaso de prata da mesa de centro. Cartas de amor na varanda. Um vão, um vão. E todo o tempo do mundo pra curar meu vão. Hoje não tenho tempo. Sinto um calor enorme. A loucura tentando, tentando, mas eu sempre murmuro: “não”. E, a cada “não”, eu mato. Ela, eu, o tempo, a fúria.

Antes da guerra, querido. Não era preciso gastar tanto tempo pra manter os mantimentos, era possível sofrer alegremente os sofrimentos, acariciar as carícias e inventar novidades. Antes da fome, querido, a vida era um paraíso e não havia vergonha. Antes da morte, querido, Deus dançava ao nosso lado umas danças de criança. Mas tudo isso era antes, bem antes. Havia uma dor que se curtia, um amor que se gritava, um tudo sem nome algum. Antes, bem antes, meu bem…

Quanta falta de nós todos.

Rebeca

uma carta de Rebeca de 13 de abril de 2008

Escrevo inflamada. Vista embaçada. Veias duras. Mel roendo os dentes. Dentes melando mel. Escrevo inflamada. Hoje mesmo a verdade me bateu à porta sutilmente: pediu-me que eu atentasse para o prejuízo. Porque é prejuízo viver assim sem juízo, aluada como manda meu coração. Aluada feito lua nova, feito ninfa do mato, feito menina antiga. A cabeça quase cai, guilhotinada como um bom castigo para uma alma em chamas. Chamas de um inferno lindo, azul e vivo.

Meus pulsos apertam. Apertados na corrente que me pus. Por proteção e amor. Agora sim eu escrevo de verdade que nem gente adulta. Não mais inflamada. Não mais louca. Nem mesmo olhando pra lua num desatino suave. Não. No centro. Pulsos apertados, olhar reto, o agora: o agora é assim, suave e manso. Ouço com delicadeza os sons do mundo: cantam morte num riso gostoso. Bradam poder fingindo amor. Mas eu volto. Ao centro. O centro é aqui, onde são ditas coisas certas. Direitas. Moça direita. Mulher inteira. Andando erguida, firme, mas por favor, que sejam femininos os passos. Assim, delicados. Firmes, delicados, gentis. Bom dia, boa noite, muito obrigada e até amanhã. Perdoe-me qualquer coisa, às vezes sou desastrada. Erro a linha da estrada. Mas eu volto, eu volto pra linha bem depressa. Tenho pressa. Não, não, a inflamação era uma doencinha besta que já tratei de curar. Pedi umas pílulas. Remedinho bobo, barato, coisa pouca. Isso. Sou saudável. Feliz. Contento-me com a beleza do raiar do dia por trás das grades da janela. Nunca um pensamento mau. Nunca a inveja. Nunca o ódio. Sou flor de laranjeira, borboleta azul, Estrela Dalva. Alva.

Amanhã eu acordo sem centro. Feliz na falta de centro. Lá e cá, cá e lá, boa e má. Um monstro com alma de anjo, demônio que faz caridade. Amor em chamas. Coisinha simples, incabível. Gosto desses pequenos instantes adolescentes que me tornam mais crescidinha na manhã seguinte. Ilusões de amanhecer.

Rebeca

vultos enfermos

Vultuoso, ele seguia. Vulto nas estradas, quase imperceptível, era por vezes brisa incômoda que levava um cisco ao olho do transeunte feliz. Mas as felicidades sempre voltavam, e ele passava. Descia a alameda quase distraído – e contemplava qualquer coisa bonita tão invísivel quanto. Podia ser atropelado a qualquer momento, tamanha a insignificância. Perguntei-lhe – quando dei de notar, talvez por causa do cisco no olho esquerdo – se sabia do mal que lhe acometia. Ele sorriu macio e sua voz não saiu. Não sei se compreendeu. Tão logo o perdi de vista nas brumas que o vultuavam. Vulto foi. Nunca se pode dizer se ele sentia aflição – se ele sentia. Só se adivinha do outro os incômodos quando do outro treme a existência – quando se vê. Por isso me sufocam os que em delicadeza somem. Por isso sinto dormências de desaparecimento diante da suavidade de quem por nós é escondido. Criamos um manto e cobrimos: e a brisa segue sem incomodar. Os vultos dançam invisíveis. Ele, atropelado seria. E eu o teria amado? Se pudesse vê-lo. Mas asséptica segui: temendo ser contaminada pela brisa. Temendo adoecer de nudez. Temendo ser.

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Os vultos ventos sopravam. Ainda. Ainda barulham minha janela. Pra me avisar que o mundo existe. Um dia eu saio: pronta para me contaminar. Adoecer sangrenta vida. Nascer.