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Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Em outro salão

O Baile de Máscaras está mudando de endereço. Agora pode ser encontrado em:

www.bailedemascaras.blog.br

Ainda há dança, poesia, loucura – toda essa minha ânsia de despejar a vida que força em mim. Vida lá fora e vida aqui. O que muda é o espaço onde se dará o Baile. Muda também um pouco de tudo a cada dia: pequenos detalhes em cada dança, em cada passo, em cada frase ou verso – mas isso sempre foi assim, mesmo aqui!

***

Opiniões sobre o novo visual serão bem-vindas! 😉

***

Pelo novo visual, agradeço ao @mvjpaiva – a quem eu tanto amo! s2

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Perdida

Pasma, nasci

assim cambaleante úmida curiosa

olhando para o corpo que não era eu…

Eu, o que era

senão o latejar ruindo flores

aguada arfando no seu precipício?

Eu, queda de você. Cachoeira ardente

de seu corpo-rocha.

Nem mesmo matéria macia,

pétala, pena ou asa;

fui mesmo água-brisa que escorria aos fios

e manto e caos e tornado e girassol…

girávamos crianças faces múltiplas

tremíamos um sexo-descoberta

você nasceu areia; eu, desastre

fizemos seu castelo na montanha

o sono nos tomou feito um milagre

e eu comi seus diamantes santos

*

Nasceu assim

cratera avulsa trêmula roída

ali na infinidade do meu corpo ao longe…

Então me despedi de meu espelho

como se me encontrasse com você.

A todo instante, hoje, eu me procuro

nos reflexos das lanças voadoras

e na brisa que nunca mais voltou…

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Amantes

Tocaram-se as mãos de leve. Era escuro e eles olhavam as estrelas. Eram ásperos como se não conhecessem ternura. Olhavam as estrelas porque nada mais tinham para fazer e, de leve, tocavam as mãos porque fazia frio e porque sentiam um na pele do outro aquela vontade escondida exacerbada que em breve se faria viva. Viveram. Quase sem notar: um pouco porque tremiam, um pouco porque a vontade exigia. Foi num instante único, sob as estrelas, sérios e raivosos: um sussurrando nomes desconhecidos, outro calado ofegante fingindo não ouvir. Eram toques-rugidos, vibrantes, cariciosos. As mentes em outros mundos sonhando talvez outros sonhos. Um fio de prazer correndo ali, tão sem vida que os deixava ainda mais excitados pelo sofrimento indolor de vivenciar um instante que logo morreria. Eram lindos e se deitaram pesados enquanto as estrelas ainda estavam. Eram belos como tudo aquilo que não se vê: deslizavam silenciosos como os pecados que as famílias insistiam em varrer para os bueiros e valas. Eram: em meio a bueiros, sonhos e vontades perdidas. A língua desconhecida da madrugada. O urbano em sua mais humana forma, o inaudível, o impossível.

Olharam as estrelas porque nada mais tinham para fazer. Murmuraram-se baixinho: “estamos ocos”, e então um milésimo de segundo de amor viveu ali. Oco. Ocos, preencheram-se suaves e buscaram se fazer inteiros até a noite passar. E, porque tudo demora muito quando se está acordado, esqueceram as estrelas e se entreolharam. Fitando-se em silêncio, sabiam que partiriam, cada qual para um lado – para lados desconhecidos. E que era impossível seguirem-se. Tocaram-se as mãos de leve, porque fazia frio novamente. Mexeram-se num certo incômodo, porque já não eram amantes: eram irmãos. E, como era impossivelmente assustador compreender a força disso, decidiram apressar a manhã e a despedida, antes que o amor os tomasse por completo e que, incestuosos, inventassem de sair de mãos dadas, não mais por causa do frio. “Estamos ocos”, murmuravam-se repetidamente, enquanto se afastavam lentamente, deixando um no outro um pedacinho de que?

Despediram-se como se nunca mais fossem voltar…

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Ela. Tenho medo de todos os erros que cometo ao falar dela: tenho medo de que, na tentativa de me permitir atravessar por ela, eu a faça de uma fluidez cômoda. Temo arrancar dela a carne e preenchê-la de poesia inócua, estética adorável pra burguês ver. Porque escrevo do alto de um apartamento. As luzes das múltiplas casas que ela habita iluminam minha noite: eu me aconchego no tormento dela e invento palavras bonitas. Deve ser por isso que faço nela carícias de escape: a morte, a fuga, o atirar-se do terraço: o fim. Eu a finalizo antes que ela me incomode demais: antes que ela machuque minha carne sossegada, carne de meu corpo macio sedentário. Ela, que é nômade. E, sim, suas múltiplas casas são poesia – caso o poeta assim deseje. Mas ela existe: ela é concreta na alegria e na dor de seus movimentos e tremores, no trabalho diário, na casa da patroa, nos braços do amante, no desassossego dos filhos. Ela é concreta quando abandona: ela às vezes é o que chamam de mãe desnaturada – desvirtua a natureza porque se cansa de seus falsos desígnios. Ela, ora vive para seus próprios propósitos, ora se reflete na intenção do outro. Ela é espelho rachado, gorda, bonita, miúda, menina…

Se não deixo de poetizá-la, é porque tenho medo do caminho tedioso-rasgante que ela denuncia. As horas que não passam, a prisão – ela já foi louca, criminosa, ela ainda hoje vive. Quão confortável é acreditar na morte: ela falecida fazendo sua festa-deusa em outro mundo. Ela, mulher. Eu a vi – em carne e sangue e vida e voz – certa vez. Ou tantas vezes, tantas vezes: mesmo nas vezes em que não a reconheci. E sei que sua vida continua, como a minha. Por isso quero fazê-la hoje sem fim. Tecer contínuo de uma vida, ou tantas. Hoje ela não termina… Hoje ela insiste na ferida e diz que minhas soluções fáceis nem chegam a arranhar a teia infinita de que é feita…

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cicatrizar-se

Ela. As cicatrizes por todo o corpo, tatuagens vivas que contavam sua história. Contava pacientemente o percurso de cada uma: “esta nasceu da primeira vez que me feriram, aquela foi a queda que eu mesma provoquei, essa daqui foi porque três crianças nasceram de mim, a outra ali nasceu de uma brincadeira em minha infância”. Contava e não se envergonhava: sempre nua, parecia ter perdido para sempre todos os pudores que todos nós tínhamos. Ela se orgulhava do corpo como quem se orgulha da vida e, lucidamente, tomava conta da própria loucura. Tinha certeza de que não a entenderiam, embora todas as histórias que contava fossem a mais pura verdade. Olhava firme, delicada, não havia qualquer ferocidade ou ressentimento no olhar: era como se houvesse encontrado a paz. Eu a chamei de Santa e ela rejeitou. Não tinha nome, título, palavra ou identidade. Portava apenas as finas cicatrizes de sua nudez. A velha sabedoria de seu olhar suave. As marcas de tudo o que passou e de tudo o que viria. Era porta-voz dos sonhos que se desenham na surdez da noite. Princesa da morte, das entregas e das perdas. Havia perdido tudo e agora gozava de perfeita saúde. E muitos, assustados com o que viam, pareciam desejar calar a sua voz. Mas como – perguntavam-se -, como calar algo tão delicado? Porque sua lucidez afrontava, mas afrontava como fazem os mansos passarinhos que nada da vida exigem além da vida. Afrontava nossas vontades vazias, nossos vazios sem fundo, a agitação inerte de todos os nossos excessos. Afrontava sem querer e nos provocava ferida funda que jamais cicatrizava, porque não conhecíamos o simples mistério da cura. Mistério dela.

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lua minguante

Lua nova, estrela guia, Lola desconhecia a própria idade. Parecia às vezes que minguava de juventude, mesmo que suas belas avantajadas formas contassem história de uma vida longa, vivida, marcada nas linhas do rosto. “Jovens são minguantes, não crescentes” – afirmava ela com toda sua sabedoria lunar. Porque a juventude lhe sugava a concretude do corpo e fazia com que, a cada estalo de desejo, parecesse que a morte estava a rondar. Lola era uma cidade inteira sob o céu estrelado, marcada por luzes, labaredas, brita e medo. Alguma vontade forte, intensa, e o resto era uma perigosa imensidão. Lola um dia foi levada de carro para o abrigo dos loucos. E foi lá que o tempo dançou insano e ela nunca mais soube o ano, o mês ou o dia da semana. Curiosamente conhecia as horas, que eram horas de sua derradeira rejuvenescência. De mulher marcada ganhou os contornos de uma bela jovem e visitou bailes, homens, namorados. Não quis casar, que era cansativo, e a bela jovem se tornou mocinha, de 15 anos e desengonçada. Sorria aflita em seu corpo lúcido e corria firme com suas pernas livres. De mocinha a pré-púbere, cada vez mais nova, Lola se tornou Lolita e bebê sem colo. E em novembro de seu aniversário terminou o tempo do qual ela era dona. Há quem diga, sem saber, que morria ali uma velhinha torta. Só Lola sabia da dor de ser criança morta. Ou lua crescente que minguou sozinha.

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de asas e prisões

Nos descaminhos do sangue, fez-se a curva: e então era uma tela manchada em rubros espirais. Tudo devastava as calçadas e os paralelepípedos desfiladeiros que derrapavam até você. E foi naqueles corredores infinitos que busquei seus olhos. Que busquei capturar a verdade aguada de sua doença. Tentei, tentei, busquei a resposta com cada milímetro de minha ciência. Que era ciência mundana. Acontece que eu nunca fui capaz de ensinar coisa alguma, porque tudo em mim vazava. Tão logo a palavra se fazia certa, o sangue em redemoinho murmurava quente e desembestava em jorros-fúrias. E tudo o que se ouvia era nada. E eu, dada a querer conhecer os mecanismos tortos das prisões, demorei a me dar conta de que  você voava. Foi um susto. E era uma coisa o seu vôo! Dele eu saboreei toda a acidez no corte fundo de minha língua ardente. Ardia-me inteira, simples, incompleta, como se uma perigosa compreensão tomasse conta de mim. Uma compreensão nova, um ineditismo de saber.  Que não era um sacro-saber que poderia ser bem esquematizado em folhas brancas. Era coisa aberta que me confundia, que se estremecia na alegria impossível do sofrimento, era uma dor aguda que se transmutava em gozo, era o silêncio sábio do que ainda não fez erupção. Porque quem voava era você. Eu era apenas um desejo trêmulo que balançava diante de.

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