Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘rebeca e cartas’ Category

Querida,

Tão escassos têm sido nossos encontros que acabo por me esquecer do ponto em que estávamos na última carta. Então, resignada, inicio apalpando palavras novas que brotam de mim em direção a você. Hoje elas me contam um segredo perigoso: dizem que todos os dias inventam a histérica para calar a mulher. Inventam enfermidade nas paralisias vibrantes, nos vômitos coloridos, nos suores deliciosos e em todo e qualquer grito. Histeria que aparece como exagero: vitimização: farsa. Histeria funda e infinita que é o silêncio imposto à sabedoria fêmea…

Digo loucuras? Pois sim, querida. E você bem me conhece. Você me anoitece e grita em sonhos: e eu sou aquela que absorve seus gritos até uma quase-surdez. Seria possível não enlouquecer assim? E, não: não me ressinto. Muito pelo contrário, amo o nosso generoso gesto de perturbar mundos internos e inventar avessos. Por isso despejo sem medo a minha loucura em você: e exalto a histérica e todo o seu teatro. Louvo sua coreografia dramática, minha querida atriz. Não porque você tenha nascido para o drama, mas porque assim foi construída, enquanto criava passos ousados no mesmo drama que lhe foi forçado – forçado doloroso como a “verdade” de uma natureza que jamais foi sua. Você engoliu amargos, minha linda, e vomitou cintilâncias. E todos aqueles tremores denunciavam a impossibilidade de se viver em meio àquelas grades quase gentis que a inventavam “feminina”. Não louvo sua feminilidade sacra, que nem é realmente sua. Insisto em trazer oferendas à sua histeria doença que conta segredos das doenças lá de fora – aquelas que nos lanceam afiadas.

Afirmo, querida, que amo o seu grito e venero tudo aquilo que chamam de enfermidade: eu idolatro a sua voz, que também é minha. Voz que nasce rasgante e clama por transformações…

Amo você, trêmula assim. E, se um dia parar de tremer, ainda assim será infinito o meu amor.

Ternura fêmea desaguando larvas,

Rebeca

Read Full Post »

Antes da guerra…

quinta-feira, 27 de março de 2008

O amor é o único lugar do mundo onde se é. E digo isso mesmo quando duvido. Então, acenda uma vela e chore, meu bem. Frágil assim. É o que nos resta, sempre. A fragilidade, aquela. O resto é essa vida aqui fora: difícil e reta. Eu não sou outra a não ser aquela que preciso ser. Vagando feito gente sóbria. Eu, a ébria: veja quanta loucura tudo isso. Nunca pensei, nunca pensei.

Mas a vida era fácil, querido. Antes da guerra. Eram flores no vaso de prata da mesa de centro. Cartas de amor na varanda. Um vão, um vão. E todo o tempo do mundo pra curar meu vão. Hoje não tenho tempo. Sinto um calor enorme. A loucura tentando, tentando, mas eu sempre murmuro: “não”. E, a cada “não”, eu mato. Ela, eu, o tempo, a fúria.

Antes da guerra, querido. Não era preciso gastar tanto tempo pra manter os mantimentos, era possível sofrer alegremente os sofrimentos, acariciar as carícias e inventar novidades. Antes da fome, querido, a vida era um paraíso e não havia vergonha. Antes da morte, querido, Deus dançava ao nosso lado umas danças de criança. Mas tudo isso era antes, bem antes. Havia uma dor que se curtia, um amor que se gritava, um tudo sem nome algum. Antes, bem antes, meu bem…

Quanta falta de nós todos.

Rebeca

Read Full Post »

uma carta de Rebeca de 13 de abril de 2008

Escrevo inflamada. Vista embaçada. Veias duras. Mel roendo os dentes. Dentes melando mel. Escrevo inflamada. Hoje mesmo a verdade me bateu à porta sutilmente: pediu-me que eu atentasse para o prejuízo. Porque é prejuízo viver assim sem juízo, aluada como manda meu coração. Aluada feito lua nova, feito ninfa do mato, feito menina antiga. A cabeça quase cai, guilhotinada como um bom castigo para uma alma em chamas. Chamas de um inferno lindo, azul e vivo.

Meus pulsos apertam. Apertados na corrente que me pus. Por proteção e amor. Agora sim eu escrevo de verdade que nem gente adulta. Não mais inflamada. Não mais louca. Nem mesmo olhando pra lua num desatino suave. Não. No centro. Pulsos apertados, olhar reto, o agora: o agora é assim, suave e manso. Ouço com delicadeza os sons do mundo: cantam morte num riso gostoso. Bradam poder fingindo amor. Mas eu volto. Ao centro. O centro é aqui, onde são ditas coisas certas. Direitas. Moça direita. Mulher inteira. Andando erguida, firme, mas por favor, que sejam femininos os passos. Assim, delicados. Firmes, delicados, gentis. Bom dia, boa noite, muito obrigada e até amanhã. Perdoe-me qualquer coisa, às vezes sou desastrada. Erro a linha da estrada. Mas eu volto, eu volto pra linha bem depressa. Tenho pressa. Não, não, a inflamação era uma doencinha besta que já tratei de curar. Pedi umas pílulas. Remedinho bobo, barato, coisa pouca. Isso. Sou saudável. Feliz. Contento-me com a beleza do raiar do dia por trás das grades da janela. Nunca um pensamento mau. Nunca a inveja. Nunca o ódio. Sou flor de laranjeira, borboleta azul, Estrela Dalva. Alva.

Amanhã eu acordo sem centro. Feliz na falta de centro. Lá e cá, cá e lá, boa e má. Um monstro com alma de anjo, demônio que faz caridade. Amor em chamas. Coisinha simples, incabível. Gosto desses pequenos instantes adolescentes que me tornam mais crescidinha na manhã seguinte. Ilusões de amanhecer.

Rebeca

Read Full Post »

do que nos envolve

É simples e lindo, querida. O som da sua dança. Torta, torta, completamente torta. Espero que não se sinta ofendida com o meu rasgado e sincero elogio: você parece estar sempre cambaleando. Sempre, sempre, completamente sempre. É com um desespero úmido que você se desfaz em sensualidade e é com o mesmo desespero que você se inteira simples. Bêbada e lúcida. Sábia. Por isso eu sei que entenderá as palavras de hoje. Essas que falam da nossa dança, falam de outro modo. Refiro-me aos mistérios das línguas – não essas com as quais saboreamo-nos, mas as línguas perdidas da história, essas que se destecem numa compreensão impossível e se armam vivas no olhar ou no gesto. Dizem meus olhos como dizem os seus, assim como dizem tristes os olhos silenciosos de quem espera um trem, as pupilas atentas da menininha perguntadora ou o suave-vibrante olhar do pôr-do-sol. Eu, que tenho medo de me perder da falsa segurança das palavras desenhadas em minha língua, não posso deixar de amar o perigo do grito, do silêncio, da voz brilhante das águas. Ouço também a voz do calor, dos outonos que não conhecemos, da seca e da neve. O murmúrio do estrangeiro e o sono do velho na grama. São as escolhas, meu bem, sempre as escolhas. Mesmo o que é chamado involuntário é recheado de escolhas. E meu coração bate porque assim deseja, assim como se empenham todas as minhas veias, todas as minhas vísceras, todos os meus pelos e arrepios. Tudo em mim deseja, ambiciona, tudo em mim escolhe e se empenha em viver. E esse longo mistério, repetido há infinidades, é um monstro que me convida à vida. Por amor a quem morre e por amor a quem chora e por um pedido de perdão a tudo o que já matei. E nós, que matamos todos os dias, devemos vez ou outra nos calar vivos em poesia. Reinventar nossos desenhos, nossos motivos, nossas escolhas. Ah, sim, sei que estou ligeiramente enfadonha. Era pra falar do vermelho, dos suores e dos bailes. Mas hoje uma estranha delicadeza toma conta de meu coração e me convida a falar do amor. E da saudade. Da mais doce e necessária compreensão. É que me nasce agora a palavra família.  Família é palavra que, como todas as outras, pode se desmontar, ramificar, transmutar. Conservada que é, pode se desconservar linda nos novos mundos que nos nascem. Dela não conheço todos os nomes, enlaces e costuras possíveis. Invento agora que é tudo aquilo que nos envolve em uma ternura que amamos. Família é você, o pai e o sossego da madrugada. É a irmã, o lençol fininho e o nascer do sol. Vizinhos, amantes, aquela mão que nos toma. É a lembrança, perfumada de estranhos instantes traçados com delicadeza. É o silêncio, o beijo, a lua. A minha casa, a nossa, a sua. As miúdas gentilezas, as grandes, a mãe. É também a estrada, aquela de nossos desenhos tortos.

Assim, querida, termino séria e muda – assim você não esperava, mas sei que sempre acolhe, envolve e eu gosto.

Rebeca

Read Full Post »

Sombras

Dancei. Dancei. E dancei. E todos aqueles rodopios, Rebeca, eram para você. Louca, eu queria fazer-me o auge da simplicidade. Perigosamente nua. Aquela nudez sem pose. Meu Deus, como desejei uma nudez sem pose: a nudez da terra e dos trovões, nudez da liberdade, uma nudez feia. Feia, Rebeca. Dancei e, em meus rodopios, fui livremente feia. Quando soltamos nossas mãos e nossos pés e nossos ventres e nossos pelos, a beleza se esvai como que desnecessária. Sobramo-nos deusas, conhecedoras – não! criadoras: criadoras dos mais delicados mistérios que descem ácidos e melados nas gargantas desavisadas. Por isso escolhi você, Rebeca. Por isso sempre escolho você. Encantam-me as coisas que você diz. Não me refiro à resposta, querida, porque a resposta é simples. Digo das perguntas que dançam e das não-palavras que melodizam a tentativa de expressar. Expressar o que? O nada. O nada, o feio, o osso, o fundo da garganta. O sono, o alívio, a velhice, o tempo e todos os tédios. Dancei, querida, dancei magicamente sobre o tédio, excitantemente entediada: amando o vazio como quem ama um príncipe. Essa foi a minha revolução da noite: amar aquilo que não se vê, aquilo que ali não está, amar estonteantemente o mal-amado: a pedra, a folha seca, as formigas e os escorpiões. Amar os detalhes e as solidões: nossas aflitas solidões vermelhas. Apagamos a vermelhidão, Rebeca, e nos deitamos nas sombras, as sombras que acariciam nosso sossego e que fazem do silêncio uma glória. Sombras que aguardam o amanhecer e que nos abraçam caladas para que possamos pensar. Pensamento que arrebata, Rebeca, que é razão risonha e sabedoria infantil. Pensamento insano, querida, que nos aguça os sentidos porque inventa a paz. Eu amo, amo, amo as sombras, Rebeca. E dentro delas eu danço, ali onde só você vê…

Read Full Post »

Orquestra do mundo

Não é o começo, o fim, ou qualquer espaço no meio do caminho. É um balançar do tempo, nas ondas do mar, no desabar de folhagens ao vento. É um balanço do silêncio, Rebeca, um balanço profundo no fundo de seus ouvidos. É a minha voz, Rebeca, infinitamente rouca, e o meu sangue fino desandando ao luar. O trilhar do sangue é sempre tempestade e, longe da ciência, sangrar é rubrar. Rubramo-nos, Rebeca, porque é necessário. Hoje o dia está límpido, certo e bem feito: nem parece que existem desastres, nem parece que as coisas se quebram. Mas nós duas sabemos que os laços se rompem e que as solidões se fazem tristes, cada qual aos pedaços. Sabemos também que cada melancolia é uma melodia desenhada nos pés descalços do menino que corre ou nas mãos apressadas da mulher aflita. Temos o costume de olhar nos olhos e acabamo-nos por esquecer a beleza anônima das mãos que repousam, trabalham, mexem, acariciam, pedem. Mãos pedintes com vontade própria, pés dançantes num baile sem fim. E ombros tortos, barrigas entregues, ventres cheios, bocas vazias, toques inertes e nucas bem feitas. Olhamos nos olhos na busca de captar um pedaço humano ou divino, um aconchego pleno, uma resposta certa. Aprofundamo-nos no olhar em busca do amor. E nos esquecemos dos movimentos leves do mundo sem nome, do corpo animal de tudo o que é humano, de nossa predatória vida nas cidades, do doce balançar nas praças das crianças. Aflitivo, Rebeca, esse mundo inumano que nos percorre, esse traço invisível que nos escreve, o silêncio maldito que nos acalenta, as feras mansas como um fim de tarde e que só olham nos olhos para dar o bote. Tudo é dança, querida. Orquestra do mundo. Arranhando sons que sempre nos escapam.

Read Full Post »

você me mancha

Frida Kahlo

Frida Kahlo

Eu sei que nunca nos abandonaremos, Rebeca, hoje sei. Porque nos amaldiçoamos juntas em nosso nascimento gêmeo: somos carne de mesma raiz sangrenta, naquela manhã de chuva em novembro. Chovia? Chovia como chove o signo de escorpião e amanhecia porque tudo em mim sempre amanhece. Somos, Rebeca. Somos o que somos, nesses poros vivos de odores loucos. Eu não queria ver, mas me foi impossível não enxergar: e vi seu amontoado de coisas, as roupas por lavar, o sangue vertendo no íntimo de sua roupa íntima; você inteira mulher, não em poesia, mas em corpo que sangra todos os meses. Você biológica. Foi então que nos inventei gêmeas, femininas loucas no silêncio impuro. Eu e todos aqueles sonhos em meio a roupas sujas. Nós, e todo aquele medo da morte do amor. Eu, desde cedo parindo feito femeazinha fértil. Você nascendo minha em infinitos nomes. Só no meu ventre, Rebeca. Só no meu sangue. Só nas palavras proibidas de baixo calão. Só no múrmúrio escondido no canto da sala. Só nos pequenos furtos fazendo pecado. E lá fora sempre anoitecia. Lá fora sempre a festa se fazia e os fogos estrondosos barulhavam o céu. Você, então, brilhava e brilhava aguda nos meus olhos aguados de amor pelo pai. O meu pai. Aquele que eu jamais emprestaria a você, gêmea ruim de meus pecados. Rebeca, querida, nunca nos abandonaremos. Porque você jamais foi a resposta que me acalentou no medo frio. Você sempre foi a pergunta de ousadia que nasceu aqui, dentro, dentro, dentro, de onde eu não podia ousar sair. Você me mancha, Rebeca, e nunca vai embora…

Read Full Post »

Older Posts »