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Archive for the ‘Estela’ Category

palpável

21/02/07

Mas também as mulheres amam corpos, e Estela é uma das primeiras a me dizer algo assim. Estela está tão longe de ser etérea que sua solidez chega a me dar medo: nenhuma criatura real pode ser tão palpável e ter coxas tão vivas. Mas Estela é morena e ama um homem, agora eu sei: ela me contou que ama um homem que tem um corpo, um corpo que fragiliza suas coxas, delicia sua língua e bagunça seus cabelos, ela me contou que ama um homem que invade seus ouvidos com vozes infinitas e que é tão real quanto a madeira da mesa da sala, tão real quanto o vento e os tigres e a doçura quente do café que ela faz bem cedo. Estela porta a dor de um corpo e essa é toda a dor de ser bicho. E recebe outros tantos corpos porque sente pavor das manhãs doces, porque teme a brisa da tarde e a velhice já esperada de seu homem. Teme, acima de tudo, amar um corpo que definha – morre de medo de adorar quando tudo no mundo começar a repousar. Estela teme que o coração sossegue e que o trabalho de seu ventre cesse. Teme a despedida do amor, as tardes vazias. Despede-se, então, da voz corpórea de seu homem antes que ele tenha vontade de ir embora de fato. Recebe outros corpos em seu corpo. E me conta assim, sólida e risonha. Estela me faz uma inveja. Ou uma ternura.

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Estela

(nascida em 19/02/07)

Não é outra coisa além disso: o amor dos fracos. Eu poderia inventar mil outros nomes e infinitas outras explicações, mas tudo isso é exatamente onde a ternura fraqueja, balbucia segredos lindos e vontade infinita de “pra sempre”. Então ela escolhe a traição. Eu digo “ela”, porque falar dela é sempre mais fácil do que falar de mim. “Ela” se chama agora Estela, acabou de ganhar um contorno nada delicado e infinitamente bronzeado: Estela está totalmente tomada de fogo e sol. Conhece algumas melodias, entende de carros, sabe de coisas que meninas geralmente desconhecem – porque não faço de Estela uma mulher comum. Aliás, é uma mentira agora o que acabo de contar: ela, feita de minha imaginação, também nasceu de carbono e pecados – porque tenho resquícios cristãos em minhas veias. E Estela, ah, Estela é uma tola, esta é a verdade. Eu poderia ser mais gentil, mas não quero. Acordei hoje sem muita gentileza e incapaz de carinho e, assim sendo, nada digo além da fraqueza dela. O último homem não tinha nome, ou acho que ela mal se lembra do nome. Não, eu não a julgo. Ou não a julgaria, se não soubesse a fundo tudo o que a levou a se meter exatamente com essas coisas assim: amores breves, alguns brutos, outros insossos, depois a cama quente e abandonada, e ela representando ardentemente o papel de mulher ardente, não tão bela mas de atrativos indiscutíveis, indiferente e viva, de tanta astúcia e nenhuma serenidade. Não, eu não a julgo. Ou eu a julgo, sim, porque sou das piores e tento agora inventar motivos ocultos para a liberdade ativa e para o prazer vivo de Estela. Acontece que, antes de inventá-la, eu havia inventado a ternura, começado a crer no amor e a serenizar em meio a ilusões comuns a todas as moças que esperam no portão. Então Estela nasceu aqui dentro, feito tempestade e se fez toda em mim como se quisesse me ensinar sua força. Ou o amor dos fracos.

De que é feita Estela, além de carbono e dos pecados meus?

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