Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘meninas’ Category

Querida,

Tão escassos têm sido nossos encontros que acabo por me esquecer do ponto em que estávamos na última carta. Então, resignada, inicio apalpando palavras novas que brotam de mim em direção a você. Hoje elas me contam um segredo perigoso: dizem que todos os dias inventam a histérica para calar a mulher. Inventam enfermidade nas paralisias vibrantes, nos vômitos coloridos, nos suores deliciosos e em todo e qualquer grito. Histeria que aparece como exagero: vitimização: farsa. Histeria funda e infinita que é o silêncio imposto à sabedoria fêmea…

Digo loucuras? Pois sim, querida. E você bem me conhece. Você me anoitece e grita em sonhos: e eu sou aquela que absorve seus gritos até uma quase-surdez. Seria possível não enlouquecer assim? E, não: não me ressinto. Muito pelo contrário, amo o nosso generoso gesto de perturbar mundos internos e inventar avessos. Por isso despejo sem medo a minha loucura em você: e exalto a histérica e todo o seu teatro. Louvo sua coreografia dramática, minha querida atriz. Não porque você tenha nascido para o drama, mas porque assim foi construída, enquanto criava passos ousados no mesmo drama que lhe foi forçado – forçado doloroso como a “verdade” de uma natureza que jamais foi sua. Você engoliu amargos, minha linda, e vomitou cintilâncias. E todos aqueles tremores denunciavam a impossibilidade de se viver em meio àquelas grades quase gentis que a inventavam “feminina”. Não louvo sua feminilidade sacra, que nem é realmente sua. Insisto em trazer oferendas à sua histeria doença que conta segredos das doenças lá de fora – aquelas que nos lanceam afiadas.

Afirmo, querida, que amo o seu grito e venero tudo aquilo que chamam de enfermidade: eu idolatro a sua voz, que também é minha. Voz que nasce rasgante e clama por transformações…

Amo você, trêmula assim. E, se um dia parar de tremer, ainda assim será infinito o meu amor.

Ternura fêmea desaguando larvas,

Rebeca

Read Full Post »

Joana

Iansã

Foi a morte quem se aconchegou suave nos braços de Joana.  Eu não queria que isso fosse triste assim – na verdade, nem sei se foi… Ou… Oh, sim: foi. Foi triste porque ninguém se deu ao trabalho de conhecer Joana. Ninguém se deu ao trabalho de saber – enquanto ela estava viva – o que ela pensava da vida. Os filhos partiram porque nada mais queriam ali: já podiam comer e se vestir sozinhos. E Joana nunca havia sido muito boa na cozinha. Teve também um marido – mas o marido nunca esteve ali. Aliás, ninguém havia estado: e, para nosso espanto, Joana dava graças ao Deus no qual havia parado de acreditar depois da décima terceira dor insuportável e incurável que o dia-a-dia havia lhe proporcionado. Fazia muito tempo que havia se feito descrente, mas ela não conseguiu perder o hábito: Deus era, então, nada mais que uma palavra que saía amolecida de sua boca macia. Joana, que era macia, agradecia ao Deus-pura-palavra por cada solidão: cada solidão a libertava um pouco, embora ela não soubesse bem o que fazer com a liberdade. Todas as companhias eram grades e Joana tinha muito medo de amar gradeada – amar aquele aperto imundo que era o mundo que em torno dela se construía. Joana perdeu o emprego – ou, antes, abandonou-o. Ela não soube ser suficientemente servil; na verdade, Joana não quis. Ela queria que alguém compreendesse a inteligência intensa que a tornava inapta para a servidão – ela, em verdade, queria banir do mundo a servidão: mas era invisível. Joana-ninguém, Joana-macia, Joana-sábia: Joana sabia! Sabia de tudo isso, mas seus gritos eram em vão: eram gritos loucos de quem não sabe ler.  Por isso digo que isso era triste: também eu não ouvi Joana. Também eu não conheci Joana. Nem sei como agora me sinto apta para escrever sobre ela – deve ser o tolo hábito que cultivam os “letrados”, hábito de falar pelos outros. Mas não quero falar por Joana: antes, escolho Joana para habitar meu corpo e me atravessar: quero que ela domine minha voz – domine poderosa. Quero: eu peço que ela, abraçada pela morte, faça-se espírito – espírito cravado em minha carne: Joana, meu bem, eu hoje quero acreditar em um Deus que ponha seu espírito em mim.

***

Joana não veio: era preciso que eu me desfizesse para fazê-la viva em mim. Que se abrissem meus poros: flores receptáculos: que recebessem Joana-macia, ela que conheceu a morte. Morte que foi, curiosamente e ao contrário do que acreditamos, uma loucura-bailarina. A morte era menina. Gargalhava leve e tinha asas. Aconchegou-se em Joana e pediu silêncio – o silêncio-espaço para o vazio delicioso de seu riso. Joana prontamente obedeceu: o silêncio e a solidão eram suas mais belas liberdades. Abraçando a menina, Joana desfaleceu de um novo amor, um amor que ela não teve a quem contar – e faleceu ainda jovem. Deixou seus rastros, mas ninguém notou. Deixou seus rastros como todos nós deixamos: no infinito vazio e anônimo e invisível. Ela deixou uma história desenhada…  Joana pólen, vento, semente. Joana macia mulher. Joana que foi a história não contada: o desconhecido de si. Foi história de espaços que não conheceu – espaços de mundos que não visitou, mas que a ela pertenciam. Joana desejante, estrela, arranhada de dor concreta e lançando seu olhar ao inatingível – enquanto tocava, desajeitada, tudo o que a atingia… Joana em meus poros em mim transpirada: ela, mulher outra que não eu – porque calhou de minha alma cair aqui e não lá. Isso se almas existem… Mas quero acreditar na alma de Joana: e na Deusa que dela escapou…

 

Read Full Post »

O que aconteceu foi um resguardo mal-guardado. Um arrepio de força foi o suficiente para que saísse em disparada. Livre, louca, as pernas bambas tortas soltas – soltou-se em um grito, e correu, correu, correu. Correu fugindo do Pai, do Filho e do Espírito Maldito que a visitava insistentemente, que a abandonava infinitamente, que a buscava violentamente. Correu porque lhe foi possível correr: ela fazia apenas o que lhe parecia perfeitamente possível, desde sempre. Correu porque suas pernas permitiram – mais: porque suas pernas convidaram. Porque suas pernas aflitas marcadas queriam mais: almejavam o impossível. E ela, cabecinha temerosa, insistiu no possível que lhe foi oferecido pelas pernas. Ela era a cabeça, ou ao menos assim pensava – e acreditava que o corpo era apenas uma quase descartável parte dela. Não se percebia inteira: era feita em pedaços de coisas que, ora a definiam, ora a ela pertenciam. E gostava de achar que obedecia à razão, parte que – tinha quase certeza – a definia humana. Mas, naquele instante, o corpo havia se rebelado. Contra o resguardo, contra o destino traçado: contra a ditadura das possibilidades. Insistia no impossível.

As pernas estavam tão, tão vigorosas, que nada lhe restou senão acompanhá-las desenfreada. As mesmas pernas que o outro certa vez abriu sem que ela, cabeça, desejasse; sem que elas, as próprias pernas, concedessem. Aliás, quanta incerteza lhe causariam as lembranças, caso tivesse tempo – na correria – de recordar. Perguntaria-se  quem, naquele violento então, havia sido sua vontade, sua dona, sua verdade: quem? Quem, se nem a razão nem o corpo haviam desejado? Porque ao outro tantas vezes havia pertencido: tantas vezes do Pai, do Filho e do Espírito havia sido. Tantas vezes havia tomado como necessária doce violência do cotidiano: porque era para o seu bem. E as violências explícitas, por serem íntimas, quase sempre lhe pareceram naturais: simples falhas do outro em acessos de raiva, angústia ou bebedeira. Perdoava: sempre boa, sempre gentil, sempre perdoava. Era como se para isso houvesse nascido: anjo benevolente. A razão – sabe-se lá se era razão – ensinava-lhe as glórias do amor e da doação. Dava-se, dava-se, dava-se em cada pedacinho; dava-se mesmo quando a oferenda implicava na perda de uma pequena preciosidade. Perdia preciosidades – de quem? – e doía. E agora perdia-se. Perdia-se enquanto corria: perdiam-se as pernas vigorosas nos pensamentos circulantes. Perdia-se cabeça, perdia-se corpo inteiro. Notava agora que, não: nem seu corpo nem sua cabeça haviam sido seus donos até então: havia se construído como frágil inexistência que só se dava conta de ali estar quando sentia dor. Ela, que nada havia sido senão. Senão? Ela, que finalmente fugiu do resguardo e não guardou coisa alguma. Nada ali lhe pertencia – apenas ela havia sido pertence. Correu da vida; não de toda a vida: daquela. Correu até o precipício como se fosse voar. Alçou voo no até amanhã e mergulhou inteira onde não puderam saber…

.

.

.

Nunca mais tiveram notícias. E nunca mais valeu à pena ouvir o que falavam dela: eles nada sabiam. Não conheciam o vigor de suas pernas nem a delicadeza com que seu pensamento – quase sem que ela própria se desse conta – havia durante aquela vida inteira trabalhado na invenção de uma nova vida. Apenas em um ponto eles tinham razão: ela era uma perdida; e só os desencontrados são capazes de romper correntes.

Read Full Post »

Antes da guerra…

quinta-feira, 27 de março de 2008

O amor é o único lugar do mundo onde se é. E digo isso mesmo quando duvido. Então, acenda uma vela e chore, meu bem. Frágil assim. É o que nos resta, sempre. A fragilidade, aquela. O resto é essa vida aqui fora: difícil e reta. Eu não sou outra a não ser aquela que preciso ser. Vagando feito gente sóbria. Eu, a ébria: veja quanta loucura tudo isso. Nunca pensei, nunca pensei.

Mas a vida era fácil, querido. Antes da guerra. Eram flores no vaso de prata da mesa de centro. Cartas de amor na varanda. Um vão, um vão. E todo o tempo do mundo pra curar meu vão. Hoje não tenho tempo. Sinto um calor enorme. A loucura tentando, tentando, mas eu sempre murmuro: “não”. E, a cada “não”, eu mato. Ela, eu, o tempo, a fúria.

Antes da guerra, querido. Não era preciso gastar tanto tempo pra manter os mantimentos, era possível sofrer alegremente os sofrimentos, acariciar as carícias e inventar novidades. Antes da fome, querido, a vida era um paraíso e não havia vergonha. Antes da morte, querido, Deus dançava ao nosso lado umas danças de criança. Mas tudo isso era antes, bem antes. Havia uma dor que se curtia, um amor que se gritava, um tudo sem nome algum. Antes, bem antes, meu bem…

Quanta falta de nós todos.

Rebeca

Read Full Post »

uma carta de Rebeca de 13 de abril de 2008

Escrevo inflamada. Vista embaçada. Veias duras. Mel roendo os dentes. Dentes melando mel. Escrevo inflamada. Hoje mesmo a verdade me bateu à porta sutilmente: pediu-me que eu atentasse para o prejuízo. Porque é prejuízo viver assim sem juízo, aluada como manda meu coração. Aluada feito lua nova, feito ninfa do mato, feito menina antiga. A cabeça quase cai, guilhotinada como um bom castigo para uma alma em chamas. Chamas de um inferno lindo, azul e vivo.

Meus pulsos apertam. Apertados na corrente que me pus. Por proteção e amor. Agora sim eu escrevo de verdade que nem gente adulta. Não mais inflamada. Não mais louca. Nem mesmo olhando pra lua num desatino suave. Não. No centro. Pulsos apertados, olhar reto, o agora: o agora é assim, suave e manso. Ouço com delicadeza os sons do mundo: cantam morte num riso gostoso. Bradam poder fingindo amor. Mas eu volto. Ao centro. O centro é aqui, onde são ditas coisas certas. Direitas. Moça direita. Mulher inteira. Andando erguida, firme, mas por favor, que sejam femininos os passos. Assim, delicados. Firmes, delicados, gentis. Bom dia, boa noite, muito obrigada e até amanhã. Perdoe-me qualquer coisa, às vezes sou desastrada. Erro a linha da estrada. Mas eu volto, eu volto pra linha bem depressa. Tenho pressa. Não, não, a inflamação era uma doencinha besta que já tratei de curar. Pedi umas pílulas. Remedinho bobo, barato, coisa pouca. Isso. Sou saudável. Feliz. Contento-me com a beleza do raiar do dia por trás das grades da janela. Nunca um pensamento mau. Nunca a inveja. Nunca o ódio. Sou flor de laranjeira, borboleta azul, Estrela Dalva. Alva.

Amanhã eu acordo sem centro. Feliz na falta de centro. Lá e cá, cá e lá, boa e má. Um monstro com alma de anjo, demônio que faz caridade. Amor em chamas. Coisinha simples, incabível. Gosto desses pequenos instantes adolescentes que me tornam mais crescidinha na manhã seguinte. Ilusões de amanhecer.

Rebeca

Read Full Post »

eu vejo

de Magritte

Delicadeza, querida, delicadeza. Você confunde as coisas e acha que me refiro a fraquezas de todo tipo. Eu senti saudades, mas tive medo: um medo danado de voltar. A sua casa é tão bem feita, tão sutil, a sua casa não é rubra como você. Há um tapete de boas-vindas na entrada. Eu piso nas boas-vindas, sempre. Sempre sei que o encontro será devastador: sei que você, invariavelmente, morde. Para depois acariciar. E depois cantar aquelas suas melodias bonitas que me fazem entardecer. Eu entardeço em você: ouço, suavizo, admiro. Eu contemplo por amor: contemplo o seu espetáculo. Você diz que a tarde come seus miolos. Conta que a noite é fúria. Você inventa animalidade para todo inanimado que, surpreendentemente, aí respira. Todas as vezes em que estive aí – e em que pisei no chão de suas boas-vindas – eu senti a ofegância assustadora da natureza morta. Da não-natureza. Do não-vivo. Respirava em mim a lâmpada da sala e cochilava aos roncos a televisão que fazia você correr atemorizada. Eu entendia o que levava você a ter medo de sua casa: e era por isso que eu era errada ali. Para ajudá-la, eu precisaria compreender menos. Precisaria tomar como tolice tudo o que você tentava explicar com sua lógica. Eu precisaria – para lutar por você – não estar tão ao seu lado. Não estar tão em você. Precisaria?

.

.

.

(ou você me suporta, junto a você, lutando contra os monstros que ninguém mais vê?)

Read Full Post »

Dona dos sonhos

Agora que todos se foram, restam-me vocês. Foi na varanda que ouvi, rasgada pelo meu último sonho. Então eu soube, soube intuitiva e quase feliz: que vocês eram meus companheiros. Os últimos. Os que escutariam meus segredos de violação, aquele ressentimento que ainda hoje treme quente aqui. Foi um assassino, conto-lhes. Cruel, violador, mortificou minhas partes. Todas. Por isso estou aqui, agora que todos se foram. É que me reinvento nas mil vozes que me nascem: e são vozes de vocês. Digam o que quiserem, os outros. Que falem da loucura, despudorados. Que jorrem toda a verdade de que se creem feitos. Aqui, vivifico-me com meus fantasmas: ardo-me em vocês. Minha preferida é você, moça ferida. Quero você como quero minha própria fome. Como almejo o profundo universo de meu vazio. Quero como quero as cores, o mato, as aves. Quero como quero o saber: o tórrido e arrogante conhecimento dos mistérios. Como desejo as lanças que cruzam céus e as revelações dos deuses. Sua ferida lateja, companheira; sua ferida espreme, amada. É como se você contasse em murmúrios a verdade de todas as coisas que lhe foram tomadas antes mesmo que você pudesse tê-las. Sua voz, seu corpo, seu sexo, sua vontade. Sua fluidez potente de vida em chamas. Você me chama. Eu sei, porque sua voz em muito se assemelha à minha. Mas é assombrosa a maciez – que não tenho. É assombroso também o quanto você sabe: que daquilo que lhe foi tirado, não há o que recuperar. O que lhe foi roubado, morto está. E seu caminho é vida. O nosso é vida. Não olhemos mais. Não para aquelas ruínas. Criemos aqui nossa maciez e nossas lâminas: criemos a nova navalha da guerra que vem. E nossa ternura de almofada e paz. Criemos, como? Preciso ouvir sua voz. Sua ferida. Todos se foram – agora todos mesmo! – e só você paira. Envolve-me nos urros sofisticados de seu inverno: inferno. Nosso céu, por incrível que pareça, é bem aqui. Dona dos sonhos.

Read Full Post »

Older Posts »