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Archive for the ‘papai’ Category

delírios de sede

(René Magritte,  A Condição Humana, 1935)

(René Magritte, A Condição Humana, 1935)

18/10/06

Então, papai, notaste o perigo que seria me contar das coisas, sabias desde cedo da minha sede porque desde cedo aprendi a delirar diante das águas do mar – só não pude saber que tu descobririas que meu delírio era sede. Agora, sou eu a te contar, papai, sou eu a revelar com que vitalidade íntima aprendi a dançar sozinha num rodopiar infinito. Numa casa de espelhos tantos, num salão de espelhos no chão e no céu, e eu a contemplar-me o tempo todo – perdoa minha vaidade, papai, era inocente, juro. Era inocente como a ânsia de amor que já me tomava desde a bochecha (que jamais fica rubra na medida justa do sangue que sobe até o rosto) até os pés (que suavam a sola e por isso eu deslizava como que em líquido). Era jogar-me nos braços, papai, e era escolher os braços preferidos. Era rubro, intenso, infinito, balançar de quadris e aconchego de tarde de domingo, era de repente acreditar ser uma mulher crescida – e que mulheres crescidas fazem todas essas coisas – quando tudo aquilo era, na verdade, a dança ousada de uma criança. Era rubro, intenso, infinito, papai, era tédio e loucura, era certeza, era certeza, era certeza. Era adoração, não era? Que pecado.

Ainda não entendo bem teu amor pela dúvida, pelo silêncio, pelo segredo. Mesmo assim, busco te inventar como bom exemplo ao menos hoje, e hoje guardo segredos, faço silêncio, duvido. É que, além disso, era uma surda catástrofe, rubra, intensa, infinita. O fim agora é delicado, minhas pálpebras pesam, e então me dou conta de que teus olhos são de uma paixão entediada que talvez eu já esteja entendendo. Desejo agora sossegar. E deslizar sossegada, pronta para o amor manso, para a dança última da noite, em melodia quase fúnebre – mas é apenas despedida do amor. É apenas o amanhecer.

Perdoa-me se te conto segredos assim, é uma indelicadeza não me dar conta de que não sabias que eu jamais tive medo de nadar sozinha até o alto-mar, e que um dia me entregaria ao meu delírio de sede. Sei que me vigiavas na praia, papai, e isso era de uma suavidade tão insuportável que já disparava meu coração numa vontade imensa do eterno, do berço, de colo.

Ainda assim, confesso…

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Mais uma vez, papai

18/12/06

Mas é de tua ordem que preciso, papai. Já me deste o brilho nos olhos, e colocaste em meus sonhos qualquer saudade que me prende os passos. Sei, papai, que a ti escrevo há tanto tempo e que isso é incessante. Sei que me fizeste imperfeita e viva, vibrante de uma certa alegria e dotada de toda a melancolia de quem é incapaz de se esquecer. Tenho, então, nos dedos a leveza de uma amante gentil, e nas mãos qualquer força bruta de um homem, e minha língua traz gotas delicadas de veneno que se vingam em silêncio, mas tenho lábios amáveis – ou, ao menos, assim os fizeste quando me criaste. De resto, meu ventre é do tipo que produzirá amor, bebês, e fadas, e, sendo tua filha, sou o tempo todo um pouco antiga. Moldada por um historiador, papai, sei que sou impiedosa como teus deuses da antiguidade. Ainda assim, sou mole, confusa e cheia de compaixão, porque me inventaste numa atualidade que te fez perdido feito um menino. És de tudo um pouco, meu paradoxo. Sou paradoxo de mim e, determinada, fico na janela esperando a tua ordem para, enfim, alçar vôo. Faz-me um vôo, papai. Faz asas pra mim.

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Conta, papai…

(12 de Outubro de 2006)

“Conta-me uma história, pai!”, conta, papai; conta, por favor. Está escuro aqui, tu és na escuridão o meu sossego, eu que tenho um susto que começa bem na altura da bochecha e desce até o ventre fazendo um frio imenso, um frio imenso de tremedeira – e tudo isso é um susto enorme de amor, salivas e becos escuros, susto enorme do abandono próximo e do abandono antigo; conta, conta, conta, uma história qualquer, explica por favor o que é aquilo que um dia chamaste de comunismo e que me ardeu no coração, conta que a mulher do espelho nunca vai aparecer pra mim e que a bênção do padre faz mágica de verdade, conta, conta, conta, por favor, papai, mesmo sem acreditar. Conta que isso que tu chamas de comodismo é também amor, que beco escuro não é coisa de prostituta, que prostitutas podem acontecer como também acontecem os anjos, conta que os anjos acontecem, que o coração não dói, que amor é coisa bonita, que a beleza pode ser vermelha e o sexo, cuidadoso. Conta, conta coisas que não me contarias, conta que bonecos não são assassinos, que debaixo da cama só há poeira e que todos os dias voltarás pra matar baratas na minha nova casa toda azul – minha casa que vai voar. Conta que não dói, papai, conta uma história por favor. Diz que é história e que história é coisa de verdade, que a Terra do Nunca existe mesmo para os que já pecaram.

Conta, 1, 2 e 3 e até o infinito, e depois conta tudo errado, mistura tudo, conta porque o moço dorme nas ruas e porque a gente nunca desaprende a andar de bicicleta, e conta quais são aquelas coisas que a gente desaprende pra sempre. Conta, 4, 5 e 6, e por aí vai. Conta, conta, conta, porque está escuro aqui e tua respiração já não sei se é delírio ou se acontece ainda.

***

“Dobrei-me de repente em dois e para frente como em profunda dor de parto – e vi que a menina em mim morria. (…) Para cicatrizar levará tempo.” (Clarice Lispector, Água Viva)

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