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Archive for the ‘ícaro’ Category

Pedi aos céus que os cavalos não me despertassem de madrugada, mas eles vieram aos galopes desbravando chãos, mergulhando na infinidade do mato aí fora para trazer notícias suas, Ícaro. Era uma carta em letras estranhas e incompreensíveis e eu bem soube que anunciava a sua morte. Só porque você é homem. Eu tremi, tremi, tremi assim inteira de horror. Feito uma viúva assassina, solitária, perversa, aquela que deseja os cavalos e despreza os homens, aquela que sonha com galopes na infinita noite e não sabe repousar. Viúva má, viúva negra, aranha tecendo uma infinita teia de morte. Eu tive um pouco de pena, Ícaro. Porque era uma paz olharmos juntos para o mar. E eram boas suas carícias virgens. Eu acho que você era meu marido e eu não sabia. Acho que voávamos juntos enquanto eu dormia e sonhava. Você costumava me levar em passeios-sonhos e me ensinar sobre as coisas do mundo. Você e sua ciência, Ícaro. Sua sabedoria toda. E eu só pedindo aos céus que os cavalos não me despertassem. Porque eu sabia que trariam notícias suas. Sabia que seriam notícias más. Eu conhecia bem a sua morte, Ícaro, na palma da sua mão. Nasci cigana, já lhe contei? Pois bem: eu temia a sua morte e o meu grito de liberdade. Eu temia a minha fera livre que se faria matagal quando você se fosse. Você sempre me segurou, Ícaro. Você voava e deixava meus pés no chão. E nunca compreendeu que o vôo feminino é fúria. Que fêmea que voa é fera. Sou sua águia, Ícaro de meu coração. Assisto aqui do alto ao seu enterro santo. Ao nosso amor perfeito. Eu fugi com os cavalos, sabia?

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Sem palavras

Nossas mãos dadas, Ícaro. Em frente ao mar. Você me quer? Você sabe que eu perguntarei a todo momento e dia e noite e sem parar. E você sabe que não sei querer sem dizer, Ícaro, a palavra me consome. Dizer é impossivelmente necessário: desde cedo já acordo comentando as frutas no pé e o vento que não pára e o seu ronco de madrugada e o sonho que eu tive. E eu sonhei com uma escada, Ícaro, e sonhei com nudez. E por que eu estava nua? Tão nua, Ícaro, e meu corpo era todo escrito e você lia em voz alta a história marcada na minha pele, era uma história sem pé nem cabeça contada em mim da cabeça aos pés. Nossas mãos dadas, Ícaro. Nosso silêncio. Como é que você consegue fazer tão bonita essa sua solidão? Seu horizonte? Aguardar a hora da colheita, Ícaro. Velejar sozinho. Ouvir voz nenhuma. Amar o sol. Enquanto eu insisto em dizer. Enquanto me consumo em palavras e me canso ao fim do dia de ter perdido os vazios. E se de repente eu me calo? E se de repente eu calo todo o mundo ruidoso que não me permite fluir? E se me vejo voando, Ícaro? Nas asas que você tem. É silêncio, Ícaro. Mas não é segredo. Quando eu voltar conto tudo para você. Com os olhos nos seus e as mãos nas suas. E sem palavras…

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Ícaro e eu

Mas a sua velhice conta história, Ícaro. E eu não sei ouvir. Eu me perdi da nossa vida, Ícaro: estou tão pasma de certezas que quase não sinto o deleite da dúvida na minha pele. Eu quero ouvir, Ícaro. Na nossa praça a sua história. Em suas paredes a nossa velha arquitetura. O mundo inteiro do que foi. O som antigo, Ícaro. Da nossa morte. O grito vivo, Ícaro. Do que está morto. Eu quero ouvir a sua queda sem dizer palavras minhas, palavras tolas, palavras nada. Eu quero parar de inventar consolos tolos, limpos, assépticos. Eu quero ouvir a sua queda e segurar a sua mão que agarra a minha: eu sei também que a vida é dura, Ícaro, e que derrete ao sol. Então me dê o colo de sua tristeza e eu prometo cantar uma canção feliz pra você. A gente que, dando as mãos e pisando a terra, reinventa as sensações e aumenta a vida. Meu velho Ícaro. Estou crescendo mas basta um toque incerto que eu viro areia.  Eu sou sereia.

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Ícaro

A gente se acostuma a achar que a vida deve ser no sentido da perfeição: nada de esbarros. Nem erros, nem perdas, tudo inatingivelmente nosso, maravilhosamente a nosso alcance. São muitas luzes, Ícaro, e muitas cores, e muito barulho e poucas flores. Você mal veria o sol se viesse aqui. Pousaria o olhar nas outras, perfeitas douradas na praia, ou no infinito dos meus olhos, imperfeita desejando saber de você. De suas asas inúteis. De sua queda tão tola. A gente não cai aqui, Ícaro. E aqui a gente também não voa. Eu me sinto meio humana em carne e incômodo em meio a uma infinidade de retratos imóveis perfeitos, mas também eles tem olhos, Ícaro, e também eles sabem que não sou tão humana assim. Que minha carne já é dura feito porcelana. E que me perdi de sentir. Você quis o sol, querido, e eu sinto ternura pela sua vaidade tão pueril: querer o sol é coisa de anjo. É querer a beleza do impossível. Mas o impossível que toca na pele. Que derrete o corpo e invade os poros. Eu queria querer a mesma vaidade que você, Ícaro. Eu queria me deslumbrar com belezinhas. Amar a terra, o vento,  as nuvens e o sol. O Sol. Queria derreter. Desfazer-me. Ter asas desfeitas, mas ter asas. Lama. Angústia, leite, lã e natureza. Penas, leveza, calor. Isso é saudosismo do que nunca existiu. Eu escrevo, Ícaro. Pra fazer sentido. Mas eu queria mesmo era que seus olhos fitassem os meus. Eu queria ser amada pelos olhos, goela abaixo, de corpo em poros. Eu queria ser amada pela poesia de você. Brincar de labirinto-corpo. Nas pontas dos meus dedos em choque. Fina feito mulher. Gente.

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