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Em outro salão

O Baile de Máscaras está mudando de endereço. Agora pode ser encontrado em:

www.bailedemascaras.blog.br

Ainda há dança, poesia, loucura – toda essa minha ânsia de despejar a vida que força em mim. Vida lá fora e vida aqui. O que muda é o espaço onde se dará o Baile. Muda também um pouco de tudo a cada dia: pequenos detalhes em cada dança, em cada passo, em cada frase ou verso – mas isso sempre foi assim, mesmo aqui!

***

Opiniões sobre o novo visual serão bem-vindas! 😉

***

Pelo novo visual, agradeço ao @mvjpaiva – a quem eu tanto amo! s2

Do louco ela fugiu porque existia

Porque era ela própria desatino

Morreu omissa triste a cada dia

Temendo o desandar de seu destino:

*

“Caos e tempestade, pequei por omissão!

Omissa, permiti calar os fluxos

dos gritos-agonia e do pedido:

Vínculo!

Vínculo é matéria de tecido

é seda, linha, macia, som-do-mundo

.

Ele e sua infância eterna!

O medo era porque criança mata

Sonhei com a menina assassina

e com homem paranoico em farrapos

Ali eu era santa-acolhedora

Aqui eu os temi vivos em mim.

.

Meu sexo era dele e ele meu

Não éramos nem homem nem mulher

Deixei-lhe uma rosa azul e pétala

e ele me entregou sua morada

Corri aflita infeliz sozinha

Pra sempre insana e sempre em discrição.

.

Eu me esqueci,

não da loucura dele,

mas de meus próprios gritos enterrados

da minha antiga pose de rainha

do cortem-lhe a cabeça aos desafetos

Abandonei o que me fazia monstro

e também a generosidade – aquela

que daqui descia aos feixes rumo ao nunca

ao tudo

ao antes

ao sempre

ao que vivia!

.

Amor e paranoia ainda existem:

mas eu me faço reta como pedem.

Pequei por omissão, tenho certeza

no dia em que fingi que não me ouvi!”

Perdida

Pasma, nasci

assim cambaleante úmida curiosa

olhando para o corpo que não era eu…

Eu, o que era

senão o latejar ruindo flores

aguada arfando no seu precipício?

Eu, queda de você. Cachoeira ardente

de seu corpo-rocha.

Nem mesmo matéria macia,

pétala, pena ou asa;

fui mesmo água-brisa que escorria aos fios

e manto e caos e tornado e girassol…

girávamos crianças faces múltiplas

tremíamos um sexo-descoberta

você nasceu areia; eu, desastre

fizemos seu castelo na montanha

o sono nos tomou feito um milagre

e eu comi seus diamantes santos

*

Nasceu assim

cratera avulsa trêmula roída

ali na infinidade do meu corpo ao longe…

Então me despedi de meu espelho

como se me encontrasse com você.

A todo instante, hoje, eu me procuro

nos reflexos das lanças voadoras

e na brisa que nunca mais voltou…

Histeria

Querida,

Tão escassos têm sido nossos encontros que acabo por me esquecer do ponto em que estávamos na última carta. Então, resignada, inicio apalpando palavras novas que brotam de mim em direção a você. Hoje elas me contam um segredo perigoso: dizem que todos os dias inventam a histérica para calar a mulher. Inventam enfermidade nas paralisias vibrantes, nos vômitos coloridos, nos suores deliciosos e em todo e qualquer grito. Histeria que aparece como exagero: vitimização: farsa. Histeria funda e infinita que é o silêncio imposto à sabedoria fêmea…

Digo loucuras? Pois sim, querida. E você bem me conhece. Você me anoitece e grita em sonhos: e eu sou aquela que absorve seus gritos até uma quase-surdez. Seria possível não enlouquecer assim? E, não: não me ressinto. Muito pelo contrário, amo o nosso generoso gesto de perturbar mundos internos e inventar avessos. Por isso despejo sem medo a minha loucura em você: e exalto a histérica e todo o seu teatro. Louvo sua coreografia dramática, minha querida atriz. Não porque você tenha nascido para o drama, mas porque assim foi construída, enquanto criava passos ousados no mesmo drama que lhe foi forçado – forçado doloroso como a “verdade” de uma natureza que jamais foi sua. Você engoliu amargos, minha linda, e vomitou cintilâncias. E todos aqueles tremores denunciavam a impossibilidade de se viver em meio àquelas grades quase gentis que a inventavam “feminina”. Não louvo sua feminilidade sacra, que nem é realmente sua. Insisto em trazer oferendas à sua histeria doença que conta segredos das doenças lá de fora – aquelas que nos lanceam afiadas.

Afirmo, querida, que amo o seu grito e venero tudo aquilo que chamam de enfermidade: eu idolatro a sua voz, que também é minha. Voz que nasce rasgante e clama por transformações…

Amo você, trêmula assim. E, se um dia parar de tremer, ainda assim será infinito o meu amor.

Ternura fêmea desaguando larvas,

Rebeca

Amantes

Tocaram-se as mãos de leve. Era escuro e eles olhavam as estrelas. Eram ásperos como se não conhecessem ternura. Olhavam as estrelas porque nada mais tinham para fazer e, de leve, tocavam as mãos porque fazia frio e porque sentiam um na pele do outro aquela vontade escondida exacerbada que em breve se faria viva. Viveram. Quase sem notar: um pouco porque tremiam, um pouco porque a vontade exigia. Foi num instante único, sob as estrelas, sérios e raivosos: um sussurrando nomes desconhecidos, outro calado ofegante fingindo não ouvir. Eram toques-rugidos, vibrantes, cariciosos. As mentes em outros mundos sonhando talvez outros sonhos. Um fio de prazer correndo ali, tão sem vida que os deixava ainda mais excitados pelo sofrimento indolor de vivenciar um instante que logo morreria. Eram lindos e se deitaram pesados enquanto as estrelas ainda estavam. Eram belos como tudo aquilo que não se vê: deslizavam silenciosos como os pecados que as famílias insistiam em varrer para os bueiros e valas. Eram: em meio a bueiros, sonhos e vontades perdidas. A língua desconhecida da madrugada. O urbano em sua mais humana forma, o inaudível, o impossível.

Olharam as estrelas porque nada mais tinham para fazer. Murmuraram-se baixinho: “estamos ocos”, e então um milésimo de segundo de amor viveu ali. Oco. Ocos, preencheram-se suaves e buscaram se fazer inteiros até a noite passar. E, porque tudo demora muito quando se está acordado, esqueceram as estrelas e se entreolharam. Fitando-se em silêncio, sabiam que partiriam, cada qual para um lado – para lados desconhecidos. E que era impossível seguirem-se. Tocaram-se as mãos de leve, porque fazia frio novamente. Mexeram-se num certo incômodo, porque já não eram amantes: eram irmãos. E, como era impossivelmente assustador compreender a força disso, decidiram apressar a manhã e a despedida, antes que o amor os tomasse por completo e que, incestuosos, inventassem de sair de mãos dadas, não mais por causa do frio. “Estamos ocos”, murmuravam-se repetidamente, enquanto se afastavam lentamente, deixando um no outro um pedacinho de que?

Despediram-se como se nunca mais fossem voltar…

Ela, infinita…

Ela. Tenho medo de todos os erros que cometo ao falar dela: tenho medo de que, na tentativa de me permitir atravessar por ela, eu a faça de uma fluidez cômoda. Temo arrancar dela a carne e preenchê-la de poesia inócua, estética adorável pra burguês ver. Porque escrevo do alto de um apartamento. As luzes das múltiplas casas que ela habita iluminam minha noite: eu me aconchego no tormento dela e invento palavras bonitas. Deve ser por isso que faço nela carícias de escape: a morte, a fuga, o atirar-se do terraço: o fim. Eu a finalizo antes que ela me incomode demais: antes que ela machuque minha carne sossegada, carne de meu corpo macio sedentário. Ela, que é nômade. E, sim, suas múltiplas casas são poesia – caso o poeta assim deseje. Mas ela existe: ela é concreta na alegria e na dor de seus movimentos e tremores, no trabalho diário, na casa da patroa, nos braços do amante, no desassossego dos filhos. Ela é concreta quando abandona: ela às vezes é o que chamam de mãe desnaturada – desvirtua a natureza porque se cansa de seus falsos desígnios. Ela, ora vive para seus próprios propósitos, ora se reflete na intenção do outro. Ela é espelho rachado, gorda, bonita, miúda, menina…

Se não deixo de poetizá-la, é porque tenho medo do caminho tedioso-rasgante que ela denuncia. As horas que não passam, a prisão – ela já foi louca, criminosa, ela ainda hoje vive. Quão confortável é acreditar na morte: ela falecida fazendo sua festa-deusa em outro mundo. Ela, mulher. Eu a vi – em carne e sangue e vida e voz – certa vez. Ou tantas vezes, tantas vezes: mesmo nas vezes em que não a reconheci. E sei que sua vida continua, como a minha. Por isso quero fazê-la hoje sem fim. Tecer contínuo de uma vida, ou tantas. Hoje ela não termina… Hoje ela insiste na ferida e diz que minhas soluções fáceis nem chegam a arranhar a teia infinita de que é feita…

a palavra dele

Lembro-me de quando ele lançou a palavra no meio da sala. Palavra nascida de sua garganta ferida, palavra firme – tão firme que parecia coisa concreta.  E não me surpreendeu o fato de quase todos ali terem acreditado plenamente nele. A palavra nascida de voz maciça causa a impressão de inteireza indissolúvel. Não sei bem se eu, naquele dia, cheguei também a acreditar inteiramente. Só me lembro de que um dia inventei a dúvida. Duvidei porque aprendi a acompanhar o destecer das palavras e percebi que é possível desmanchar as letras. Foi por isso que – mais tarde – capturei a palavra certa que ele lançou e a transformei de infinitos pedacinhos cintilantes. E a ex-palavra dele brilhou miudezas – ela se desfez em múltiplos vagalumes.

Da palavra-corpo, completa e firme, digo que essa é sua deliciosa farsa. É sua forma de se erguer viva e se fazer ouvir.Cabe ao dito dançar corpóreo no momento em que é lançado – a minha palavra, por exemplo, por vezes dança lasciva e seduz ardente e, outras vezes, é coberta por um véu de pudores. Toda palavra tem corpo e toda letra aperta a garganta e fere. Todo dizer é cruel e magnífico: apalpa o ambiente e implora por ser apalpado. Quem já apalpou dizeres sabe que eles se transmutam diversos conforme são acariciados ou arranhados. O dizer que um lança no meio do salão dança despudorado com todos os outros: reinventa-se no toque. Reveste-se inteiro do não-dito e se fantasia das invisibilidades que pairam silenciosas. O dizer não rompe o silêncio – antes, acopla-se a ele: tudo o que é dito se mistura a silêncios mil – silêncios aflitos que fazem tremer a forma. É o silêncio quem destroça a palavra…

Foram essas novas miúdas sabedorias que me levaram a pensar, hoje, naqueles que tomaram a palavra dele como verdade universal. Penso que não se deram conta de que logo a violariam sem querer: e que, não mais dele, ela pertencia a todos e se destinava ao desconhecido toque do vazio…