Tocaram-se as mãos de leve. Era escuro e eles olhavam as estrelas. Eram ásperos como se não conhecessem ternura. Olhavam as estrelas porque nada mais tinham para fazer e, de leve, tocavam as mãos porque fazia frio e porque sentiam um na pele do outro aquela vontade escondida exacerbada que em breve se faria viva. Viveram. Quase sem notar: um pouco porque tremiam, um pouco porque a vontade exigia. Foi num instante único, sob as estrelas, sérios e raivosos: um sussurrando nomes desconhecidos, outro calado ofegante fingindo não ouvir. Eram toques-rugidos, vibrantes, cariciosos. As mentes em outros mundos sonhando talvez outros sonhos. Um fio de prazer correndo ali, tão sem vida que os deixava ainda mais excitados pelo sofrimento indolor de vivenciar um instante que logo morreria. Eram lindos e se deitaram pesados enquanto as estrelas ainda estavam. Eram belos como tudo aquilo que não se vê: deslizavam silenciosos como os pecados que as famílias insistiam em varrer para os bueiros e valas. Eram: em meio a bueiros, sonhos e vontades perdidas. A língua desconhecida da madrugada. O urbano em sua mais humana forma, o inaudível, o impossível.
Olharam as estrelas porque nada mais tinham para fazer. Murmuraram-se baixinho: “estamos ocos”, e então um milésimo de segundo de amor viveu ali. Oco. Ocos, preencheram-se suaves e buscaram se fazer inteiros até a noite passar. E, porque tudo demora muito quando se está acordado, esqueceram as estrelas e se entreolharam. Fitando-se em silêncio, sabiam que partiriam, cada qual para um lado – para lados desconhecidos. E que era impossível seguirem-se. Tocaram-se as mãos de leve, porque fazia frio novamente. Mexeram-se num certo incômodo, porque já não eram amantes: eram irmãos. E, como era impossivelmente assustador compreender a força disso, decidiram apressar a manhã e a despedida, antes que o amor os tomasse por completo e que, incestuosos, inventassem de sair de mãos dadas, não mais por causa do frio. “Estamos ocos”, murmuravam-se repetidamente, enquanto se afastavam lentamente, deixando um no outro um pedacinho de que?
Despediram-se como se nunca mais fossem voltar…
Lindo!
E muito próximo!
“Eram belos como tudo aquilo que não se vê”
Doeu…
Fantástico. Texto profundo e escrito com sentimento… queria entender se assim como eu, seus dedos tomam vida ao escrever e quase sozinhos criam, inventam e montam uma cena ali.. naquela tela branca…
Voltarei sempre..
Parabens…
Ai Carlinha,
Como são lindas suas linhas que tecem palavras…
Beijos saudosos
áspero, oco, estrela distante colada na pupila, amor é isso.
Tão triste, Carla, com a dor dos impossíveis.
Beijo pra você.
Mas voltam, porque o desejo transcende o medo…!
(:
Gosto muito dos seus textos, profundos mas ao mesmo tempo leves!
ave, carla!
romério
Olá! Lindas palavras as tuas, no meu caminho.
Olá,
Estou passando para avisar que o Sindicato está de volta, mas com tantas novidades que é melhor passar lá para conferir. Primeiro que agora somos um portal de blogs (http://uniaodeblogs.org). Seria ótimo tê-lo como nosso associados.
Nossa ambição é alavancar as visitas de todos os associados. Temos fóruns, agregadores, comunidades de parceiros e associados, envio de artigos e muito mais. Espero você lá…
Quão sensíveis e cariciosas são suas palavras. Belíssimo texto. Parecia fazer exalar coisas que habitavam caladas em mim.
Gostei muito.