Novembro 7, 2009 por carlajaia
Era nada, senão as asas.
As asas de seus corpos dançantes, eram música. E musicalmente entoavam meus próprios gritos, me faziam louca, me contavam a história sem verbos, a história de um corpo livre. Não sei repeti-la aqui, é óbvio. Era história de ondas e curvas, vento e carne, era história de um nunca. Dançamo-nos em bando como se nos amássemos e, de fato, amávamo-nos. Amávamo-nos em mordidas e em compaixão, como se jamais. Como se. E as flores e as baratas e os terraços e as lembranças – e tudo era varrido da perda de cada uma, e as perdas se faziam cicatrizes a as cicatrizes se desenhavam máscaras e as máscaras se inventavam contos e livros e bibliotecas infinitas feitas de ruídos.
Era nada, senão as vozes. Mesmo as mudas.
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Outubro 20, 2009 por carlajaia
Era despudorada aquela minha vontade. De ouvir os segredos duros da mulher silenciosa. E ela palpitava em silêncio, a alma aos gritos. O rosto era arredondado, os olhos escuros, e tinha os lábios carnudos. Havia quem dissesse que os traços eram grosseiros, outros sequer notavam. A quem desejasse ver, no entanto, aquele rosto era puro gozo de entardecer. Era desejo. Criava filhos. Três ou quatro, não me lembro bem. Abocanhava os detalhes do dia com vigor e o trabalho na casa cheirava ao mais fino dos cuidados. O filho mais novo a queria bem, o mais velho sonhava longe, a do meio cantava ao anoitecer. Talvez houvesse um quarto filho, diagnosticado com algum problema que ninguém além dos médicos compreenderia ao certo. Ela se espremia em silêncios e vontades que mal conhecia: e trabalhava dia e noite ao infinito. A casa, o chão, a feira, a rua, os postes, a lua, a água na calçada. O mundo escada abaixo, as pernas cansadas, os filhos distraídos, o tempo que passava. Um bêbado, um homem, um medo. Aqueles contos de sei lá quando contados pela professora das séries iniciais que havia cursado. Tempos antigos de escola. Era bom saber que ainda sabia ler. Algumas cartas eram importantes. Outras de nada valiam. O vento lhe comia os dentes e os sonhos, mas quase sempre havia um pouco de música. Raramente havia dança. Era mulher silenciosa. Tinha uns poucos estranhos medos que a impediam de enxergar a coragem. Achava que ter levado a vida até ali não era mais do que sua obrigação. Acreditava que a roupa lavada era o destino. Por isso, nem por um segundo, exigia reconhecimento, gratidão ou glória.
Era despudorada minha vontade. De me desepejar no segredos abertos dela: segredos que saberiam cantar sem pudores a assustadora melodia de meus obscuros. De nossas algemas.
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Outubro 10, 2009 por carlajaia
Você.
Você diz “doutora” num pesado apelo: é como se eu soubesse de algo que você não. Então eu me sinto desmanchar inteira, por baixo do fino opaco véu que reveste meu corpo liquefeito. “Doutora não” – imploro secreta, na ânsia de vida. Doutourar é dizer a palavra certa, que é sempre palavra morta. Tudo o que é certo já morreu, posto que encerrado; vive aquilo que se desdobra, que se reparte, aquilo que despedaça, que derrete, derrama e continua. Dia desses eu comi um pedaço da sua angústia. Veio-me rude, corpórea, maciça, e afrontou minhas vísceras no calor de você. Tornávamo-nos, então, pedra e pétala, e indiferenciávamo-nos na dureza de sua muscularidade misturada ao suave de minha carne. De nossa antiguidade extraíamos essência nenhuma: ali era a angústia. Sem espaço para uma palavra que nos unisse em compreensão possível. Éramos olhos, faringes, lábios, úteros, duodenos, e a estranha vergonha dos dizeres vazios. Eu temia as palavras, limpa que estava. Você as jorrava dramático feito um filme em cores quentes. Encabulada, eu escondia minha nudez não depilada e minha ânsia de poesia e fúria. Você cantava. Cantava a dor inerte dos desesperançosos. Acorrentado nos braços, eu na alma. Pouca coisa entre nós se fazia compreensível. Talvez apenas a minha secreta vontade de que você voasse. Quem sabe também o seu surdo murmúrio de paranoia e amor, aflito em sangue invisível, certo como se respira. Era a silenciosa semelhança que nos fazia carne, essa carne mágoa que, torta, brotava-se humana. Eu queria pecar contra a ciência por você. Eu queria pecar contra a certeza por você. Minto: eu queria era pecar contra a verdade. E não por você: por mim. Eu queria um pecado enorme, contra as paredes. Por nós. Todos.
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Outubro 4, 2009 por carlajaia
Era um fio delicado e invisível e eram coleções infinitas, impossíveis. A casa dele era uma casa móvel, carregada de um canto a outro, e por vezes bem alto no céu, tudo ao sabor de seus ventos – frágeis ventos infantes que o desenhavam menino. Os pés eram grandes, os olhos dançantes, o mundo para ele era a casa e os ruídos insones da televisão ligada. Raramente o vimos nas ruas depois das seis da tarde. Às vezes ele saía e seus passos eram um desarticulado perambular. Saía com a mãe, seu desassossego pleno. Jamais se desmanchava de amores: escondia-se. Lá dentro o coração descompassava uma música suave arranhada pelos sons do jornal da noite e ele conhecia todas as notícias que o mundo lhe trazia. Desconfiava delas e então buscava recortá-las e costurá-las. Era um tecelão de verdades despedaçadas: fazia para si um mundo que destronava todos os senhores e todas as certezas e se reinventava nos novos remendos. Não era um mundo fácil, sequer legível. Sua língua era de outros universos e sua solidão falava um pouco da nossa, embora jamais ousássemos admitir. Éramos tolos em nossas certezas e temíamos o abismo fundo de seus detroços. Tudo no mundo é despedaçado, mas nós queríamos nos acreditar inteiros. Ele não.
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Setembro 29, 2009 por carlajaia
Não sei quem amansou o rio manso. Só sei que tenho medo. Medo de todas essas águas calmas que, silenciosas, obrigam-nos a adivinhar a melodia que antecipam. Eu ouço o futuro nas batidas do coração dele e, de repente, sou noivinha em paz e sonolenta. Queria saber vestir essa fantasia, essa leveza, naquele vestido amarelo já gasto de tanto voar. Mas minha tempestade é muita, é toda: não é grandiosa como um futuro brilhante, como o sucesso dos deuses, mas é trovoada de meter medo e de fazer criança se esconder no cobertor. Eu queria, eu queria, eu queria contar o que provoca minha lágrima pesada quando quase adormeço sem sonhar. Queria saber explicar esse riso, esse zelo, essa raiva; queria poder explicar porque é que as coisas se tornam sempre maiores do que são: estou sempre a ver montanhas e a espreitar multidões enevoadas que cantam aflitas as vozes do mundo. Queria o secreto dom de fazer um bordado e, no fim das contas, ser simplesmente um bom colo feminino para repouso. Mãe, mulher, noiva, esposa. As feras, no entanto, abrem-se aflitas num vão profundo. Tudo se torna grande, quente, terrível, eterno. Eu vejo altares de fogo e me prostro até queimar: a tempestade passou e o delicado vestido amarelo tomou as formas rudes de minha nudez. Imploro então – feito menina - por uma ternura fina que remonte ao colo do meu avô. Época em que sonhava ser mulher, princesa, noiva…
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Setembro 24, 2009 por carlajaia

Fonte: http://fotologando.blogspot.com/
Não é o começo, o fim, ou qualquer espaço no meio do caminho. É um balançar do tempo, nas ondas do mar, no desabar de folhagens ao vento. É um balanço do silêncio, Rebeca, um balanço profundo no fundo de seus ouvidos. É a minha voz, Rebeca, infinitamente rouca, e o meu sangue fino desandando ao luar. O trilhar do sangue é sempre tempestade e, longe da ciência, sangrar é rubrar. Rubramo-nos, Rebeca, porque é necessário. Hoje o dia está límpido, certo e bem feito: nem parece que existem desastres, nem parece que as coisas se quebram. Mas nós duas sabemos que os laços se rompem e que as solidões se fazem tristes, cada qual aos pedaços. Sabemos também que cada melancolia é uma melodia desenhada nos pés descalços do menino que corre ou nas mãos apressadas da mulher aflita. Temos o costume de olhar nos olhos e acabamo-nos por esquecer a beleza anônima das mãos que repousam, trabalham, mexem, acariciam, pedem. Mãos pedintes com vontade própria, pés dançantes num baile sem fim. E ombros tortos, barrigas entregues, ventres cheios, bocas vazias, toques inertes e nucas bem feitas. Olhamos nos olhos na busca de captar um pedaço humano ou divino, um aconchego pleno, uma resposta certa. Aprofundamo-nos no olhar em busca do amor. E nos esquecemos dos movimentos leves do mundo sem nome, do corpo animal de tudo o que é humano, de nossa predatória vida nas cidades, do doce balançar nas praças das crianças. Aflitivo, Rebeca, esse mundo inumano que nos percorre, esse traço invisível que nos escreve, o silêncio maldito que nos acalenta, as feras mansas como um fim de tarde e que só olham nos olhos para dar o bote. Tudo é dança, querida. Orquestra do mundo. Arranhando sons que sempre nos escapam.
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Setembro 16, 2009 por carlajaia
Mas nada nesse mundo se assemelha à névoa que, desentendida, cobre a superfície do espelho. É névoa do olhar fino e desenhista, que faz pelo traçado do tempo o traçado do rosto, do corpo, do fundo da sala que ali se projeta. É o fundo do passado, das saudades, do peso de todas as civilizações e da força do bárbaro, é o fundo do infinito, macho e fêmea, da falta de um nome para se dar as coisas. A névoa nega as palavras e se desmancha no absurdo do sonho, em um despedaçar esquizofrênico que borda verdades nos retalhos do que se vê. Já vi mulher, homem, criança, já fui capaz de ver um monstro e, certa vez, fechei os olhos de pavor e desisti de ver. Ah, névoa louca, da beleza jamais notada, dos desatinos revisitados, das quebras sem chance, da fêmea impossível, do riso estático. Névoa molde guardada no passado dos mundos que povoam recordações. Sou urbana, tímida, infinita, fechada entre muitas paredes de portas abertas para o céu. Lá em cima vive um espelho que respira todos os séculos. Cá embaixo as névoas inventam o caminho dos tempos que passam.
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Setembro 13, 2009 por carlajaia
Assim me ferem seus apelos, porque a compreensão é impossível. De tudo o que lhe digo, uma borra de café se perde no fundo da xícara e inventa desenhos de um futuro imprevisto. Você lê sem entender e eu também pouco entendo do seu amor. Oferecemo-nos, então, desentendidos, no sacrifício de um ao outro, e eu sangro inteira sem sofrer porque de você me preencho de uma alegria insana no palpitar de seus olhos. Assim nos fazemos amigos, irmãos, amantes, fazemo-nos os santos dos cânticos bíblicos, menos por castidade do que pela pureza que o desejo faz transbordar. E eu que invejo destinos outros, eu que escrevo para fazer-me um novo corpo e que desenho a fêmea para me inventar amada, aprendo suavemente a amar a vida que tenho e os passos tiquetaqueados do cotidiano: dançamos lado a lado no ponteiro grande do relógio e o tédio se torna folia, desastre, orgia, em nossas guerras de verbos cortantes, em nossas paixões de carícias errantes. Eu sou do meu amado e meu amado é meu, e o altar que adoramos inventa novas histórias na tradição perdida que jamais se repete. Fazemos tudo errado e nossa lealdade é plena.
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Setembro 8, 2009 por carlajaia

Argumento, então, dizendo que não é fácil. Diante da máscara que o corpo veste, vestir inteira minha nudez. É máscara fina, leve, delicada, mas que cobre meus furos, minhas reentrâncias, cobre o buraco de meu vazio. Por isso sou mulher de penumbra e de falar baixinho tomando cuidado para não cortar o silêncio. É por gentileza, educação, decoro: porque ao silêncio devo pedir licença. E tudo, tudo, tudo queima intensamente enquanto o grito não vem. Sou, portanto, ebulição que falha, ferida que lateja machucada sem poder ter a força de doer. Ontem eu vi uma flor, mas não me lembro do nome. Era flor azul do infinito medo, e tinha os perfumes fúnebres da madrugada. Era a flor do sono e do fim da tarde, flor do movimento de escurecer. Todos os detalhes do que vejo são raros, porque ando distraída, perdida, opaca; todos os segredos do que sinto são finos, porque sou singela feito a dama-flor: dama das clareiras, do fundo da mata, do som do inseto abocanhando a noite. Em tudo me desfaço em cores desmedidas, sou pétala arrancada de um desejo antigo. A voz do meu escuro faz poemas mortos, poentes, despedidos, feitos de saudades. E quando o sol se põe eu visto meu passado e me protejo contra o vento cortante do amanhã, o uivo do lobo do futuro próximo. Por isso tenho medo de olhar retratos: é como se o adeus viesse me rondar.
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Agosto 31, 2009 por carlajaia

O nascimento de Vênus - Botticelli
Voz mais bela que a sua não existe, e suas curvas cantam. Eu faço firulas em frente ao espelho para tentar parecer você. Se um dia eu crescer. Você se derrete inteira, destila seu veneno rubro na tela em branco: artista das multicores e das pinceladas santas. Então você cura: você é o espaço de minha cura, e nem se dá conta. De que ao seu lado aprendo que ser mãe é também ser mulher viril e forte – e que mãe também se faz em curvas que derrapam deusas e em mãos de fada que esculpem sonhos. Sua sabedoria vem dos templos mais antigos, sacerdotiza das eternidades, leoa, esfinge, mãe. E tudo isso eu observo admirada, menina ainda, e bem amada, treinando no espelho a volúpia e o gozo, nascendo agora de uma rosa púrpura. Nasci agora, sim, de seu ventre de mulher: nasci toda curvilínea e de cabelos longos, aprendendo cedo a ser feiticeira. Nasci, porque ontem você voou pelo jardim e polinizou todos os pedaços, todos os espaços, todos os destinos. Você trouxe seu conhecimento proibido e confessou que a arte é fêmea, por isso, instável; por isso, temperamental; por isso, arte. E em mim nasceu do insípido um vírus agridoce, que cresceu, cresceu, cresceu até ficar do tamanho da pele, extenso como o surgimento das coisas: e eu nasci. De seu ventre-caldeirão em chamas…
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