Que fosse diferente, que pudesse ser de outro jeito. Mas não foi. Que ela não houvesse escrito a última carta nem despencado terraço abaixo. Que eles não tivessem vindo abarrotados de perguntas e opiniões, prontos para despejá-las aqui, bem aqui onde tudo deveria estar se preparando para o silêncio. O silêncio que ela merecia. As coisas dela. Sempre amontoadas. E aquele retrato lindo que ela gostava de mostrar quando se sentia feliz. E que escondia envergonhada quando tinha medo. E diziam que ela deveria ter tomado os remédios, diziam que mais dia menos dia isso viria a acontecer. Porque ela se cuidava mal, porque não se acreditava doente, porque ela debochava de quem tentava colocar amarras em sua vida. Diziam também que ela deveria ter obedecido. O pai falou, era a coisa certa a se fazer. O rapaz era bom e o casamento valeria à pena. Contavam que ela levava uma vida errada. Que namorava errado. Que morreria sozinha. Completamente sozinha. As roupas também eram erradas, acho. Os cabelos curtos. Creio que também era errada a clareza com que dizia as coisas; a delicadeza, a inteligência: tanto erro em sua estranha sofisticação e em seus exageros. Ela gostava de música e de matemática. Era errado que encantasse profundamente, sendo assim tão errada. Estava errado seu trabalho, estava errado seu amor, estava errado seu destino. Era inteiramente errada sua vontade: tanta! Estava tudo tão, tão errado que era inevitável que sofresse. E eles, abarrotados de opiniões, vomitaram-nas disfarçando a cruel alegria de quem se crê certo: “sofria, pobrezinha, porque vida assim não se leva, não se pode levar”. Não sei. Ninguém contou de fato. Éramos, talvez, crianças demais para entender que tipo de vida era esse. Mas ela – ela sempre nos pareceu feliz. Não deveria ter sido assim. Mas foi.
Nem. Nem a angústia dessa dura beleza, nem a vontade de te agradar. Quero esse grito que já me vem há tempos e essa beleza mole, tão minha. Minha e dela, também da outra. Nossas adoráveis dessemelhanças, nossos singulares enlaces, esses miúdos desenlaces e os toques, os toques que acalmam a solidão. Jamais. Não mais. Esse desejo tolo de ser o que penso que desejas. Estátua perfeita da menina dos meninos. Não mais. Hoje digo dessa coisa. Minha e dela, as belezas que não se invejam. Que se tocam amolecidas, que se acariciam sem que o tempo faça de suas exigências irritantes. Nada irrita, nada pode irritar esses traços singulares que nascem na ponta dos cabelos, na textura da saliva, no risco profundo que o sorriso faz em todo o corpo. Beleza em movimento, descosturando as formas, abrindo crateras fundas na perfeição da pele: é quase literal isso: imperfeito-me. Imperfeito-me por amor a mim porque já me cansam as duras paredes que criaste sem querer. Ou fui eu quem criei, achando que criava com tuas mãos? Tuas mãos malditas de amor perfeito que me fizeram bendizer os ecos de antigos temores. Eu, a mesma. Enquanto elas dançavam outras convidando-me ao baile do infinito. Eu vi. Que eram belas e gordas e magras e pequenas e grandes e a algumas lhes faltavam partes do corpo – várias, uma, às vezes faltavam-lhes os cabelos -; eram tatuadas, marcadas, nuas ou inteiramente vestidas, eram belas, infinitamente belas, e deslizavam parede afora enquanto minhas mãos – benditas mãos! – estapeavam esses muros de cristal quase inquebráveis. Tu os ergueste? Ou fui eu, pensando que criava com tuas mãos? Malditas mãos. Benditas as minhas. Te quero ainda. Mas hoje eu danço. E o baile, meu bem, hoje é tão nosso: meu e delas.
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É simples e lindo, querida. O som da sua dança. Torta, torta, completamente torta. Espero que não se sinta ofendida com o meu rasgado e sincero elogio: você parece estar sempre cambaleando. Sempre, sempre, completamente sempre. É com um desespero úmido que você se desfaz em sensualidade e é com o mesmo desespero que você se inteira simples. Bêbada e lúcida. Sábia. Por isso eu sei que entenderá as palavras de hoje. Essas que falam da nossa dança, falam de outro modo. Refiro-me aos mistérios das línguas – não essas com as quais saboreamo-nos, mas as línguas perdidas da história, essas que se destecem numa compreensão impossível e se armam vivas no olhar ou no gesto. Dizem meus olhos como dizem os seus, assim como dizem tristes os olhos silenciosos de quem espera um trem, as pupilas atentas da menininha perguntadora ou o suave-vibrante olhar do pôr-do-sol. Eu, que tenho medo de me perder da falsa segurança das palavras desenhadas em minha língua, não posso deixar de amar o perigo do grito, do silêncio, da voz brilhante das águas. Ouço também a voz do calor, dos outonos que não conhecemos, da seca e da neve. O murmúrio do estrangeiro e o sono do velho na grama. São as escolhas, meu bem, sempre as escolhas. Mesmo o que é chamado involuntário é recheado de escolhas. E meu coração bate porque assim deseja, assim como se empenham todas as minhas veias, todas as minhas vísceras, todos os meus pelos e arrepios. Tudo em mim deseja, ambiciona, tudo em mim escolhe e se empenha em viver. E esse longo mistério, repetido há infinidades, é um monstro que me convida à vida. Por amor a quem morre e por amor a quem chora e por um pedido de perdão a tudo o que já matei. E nós, que matamos todos os dias, devemos vez ou outra nos calar vivos em poesia. Reinventar nossos desenhos, nossos motivos, nossas escolhas. Ah, sim, sei que estou ligeiramente enfadonha. Era pra falar do vermelho, dos suores e dos bailes. Mas hoje uma estranha delicadeza toma conta de meu coração e me convida a falar do amor. E da saudade. Da mais doce e necessária compreensão. É que me nasce agora a palavra família. Família é palavra que, como todas as outras, pode se desmontar, ramificar, transmutar. Conservada que é, pode se desconservar linda nos novos mundos que nos nascem. Dela não conheço todos os nomes, enlaces e costuras possíveis. Invento agora que é tudo aquilo que nos envolve em uma ternura que amamos. Família é você, o pai e o sossego da madrugada. É a irmã, o lençol fininho e o nascer do sol. Vizinhos, amantes, aquela mão que nos toma. É a lembrança, perfumada de estranhos instantes traçados com delicadeza. É o silêncio, o beijo, a lua. A minha casa, a nossa, a sua. As miúdas gentilezas, as grandes, a mãe. É também a estrada, aquela de nossos desenhos tortos.
Assim, querida, termino séria e muda – assim você não esperava, mas sei que sempre acolhe, envolve e eu gosto.
Rebeca
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Dancei. Dancei. E dancei. E todos aqueles rodopios, Rebeca, eram para você. Louca, eu queria fazer-me o auge da simplicidade. Perigosamente nua. Aquela nudez sem pose. Meu Deus, como desejei uma nudez sem pose: a nudez da terra e dos trovões, nudez da liberdade, uma nudez feia. Feia, Rebeca. Dancei e, em meus rodopios, fui livremente feia. Quando soltamos nossas mãos e nossos pés e nossos ventres e nossos pelos, a beleza se esvai como que desnecessária. Sobramo-nos deusas, conhecedoras – não! criadoras: criadoras dos mais delicados mistérios que descem ácidos e melados nas gargantas desavisadas. Por isso escolhi você, Rebeca. Por isso sempre escolho você. Encantam-me as coisas que você diz. Não me refiro à resposta, querida, porque a resposta é simples. Digo das perguntas que dançam e das não-palavras que melodizam a tentativa de expressar. Expressar o que? O nada. O nada, o feio, o osso, o fundo da garganta. O sono, o alívio, a velhice, o tempo e todos os tédios. Dancei, querida, dancei magicamente sobre o tédio, excitantemente entediada: amando o vazio como quem ama um príncipe. Essa foi a minha revolução da noite: amar aquilo que não se vê, aquilo que ali não está, amar estonteantemente o mal-amado: a pedra, a folha seca, as formigas e os escorpiões. Amar os detalhes e as solidões: nossas aflitas solidões vermelhas. Apagamos a vermelhidão, Rebeca, e nos deitamos nas sombras, as sombras que acariciam nosso sossego e que fazem do silêncio uma glória. Sombras que aguardam o amanhecer e que nos abraçam caladas para que possamos pensar. Pensamento que arrebata, Rebeca, que é razão risonha e sabedoria infantil. Pensamento insano, querida, que nos aguça os sentidos porque inventa a paz. Eu amo, amo, amo as sombras, Rebeca. E dentro delas eu danço, ali onde só você vê…
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Ela. As cicatrizes por todo o corpo, tatuagens vivas que contavam sua história. Contava pacientemente o percurso de cada uma: “esta nasceu da primeira vez que me feriram, aquela foi a queda que eu mesma provoquei, essa daqui foi porque três crianças nasceram de mim, a outra ali nasceu de uma brincadeira em minha infância”. Contava e não se envergonhava: sempre nua, parecia ter perdido para sempre todos os pudores que todos nós tínhamos. Ela se orgulhava do corpo como quem se orgulha da vida e, lucidamente, tomava conta da própria loucura. Tinha certeza de que não a entenderiam, embora todas as histórias que contava fossem a mais pura verdade. Olhava firme, delicada, não havia qualquer ferocidade ou ressentimento no olhar: era como se houvesse encontrado a paz. Eu a chamei de Santa e ela rejeitou. Não tinha nome, título, palavra ou identidade. Portava apenas as finas cicatrizes de sua nudez. A velha sabedoria de seu olhar suave. As marcas de tudo o que passou e de tudo o que viria. Era porta-voz dos sonhos que se desenham na surdez da noite. Princesa da morte, das entregas e das perdas. Havia perdido tudo e agora gozava de perfeita saúde. E muitos, assustados com o que viam, pareciam desejar calar a sua voz. Mas como – perguntavam-se -, como calar algo tão delicado? Porque sua lucidez afrontava, mas afrontava como fazem os mansos passarinhos que nada da vida exigem além da vida. Afrontava nossas vontades vazias, nossos vazios sem fundo, a agitação inerte de todos os nossos excessos. Afrontava sem querer e nos provocava ferida funda que jamais cicatrizava, porque não conhecíamos o simples mistério da cura. Mistério dela.
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Lua nova, estrela guia, Lola desconhecia a própria idade. Parecia às vezes que minguava de juventude, mesmo que suas belas avantajadas formas contassem história de uma vida longa, vivida, marcada nas linhas do rosto. “Jovens são minguantes, não crescentes” – afirmava ela com toda sua sabedoria lunar. Porque a juventude lhe sugava a concretude do corpo e fazia com que, a cada estalo de desejo, parecesse que a morte estava a rondar. Lola era uma cidade inteira sob o céu estrelado, marcada por luzes, labaredas, brita e medo. Alguma vontade forte, intensa, e o resto era uma perigosa imensidão. Lola um dia foi levada de carro para o abrigo dos loucos. E foi lá que o tempo dançou insano e ela nunca mais soube o ano, o mês ou o dia da semana. Curiosamente conhecia as horas, que eram horas de sua derradeira rejuvenescência. De mulher marcada ganhou os contornos de uma bela jovem e visitou bailes, homens, namorados. Não quis casar, que era cansativo, e a bela jovem se tornou mocinha, de 15 anos e desengonçada. Sorria aflita em seu corpo lúcido e corria firme com suas pernas livres. De mocinha a pré-púbere, cada vez mais nova, Lola se tornou Lolita e bebê sem colo. E em novembro de seu aniversário terminou o tempo do qual ela era dona. Há quem diga, sem saber, que morria ali uma velhinha torta. Só Lola sabia da dor de ser criança morta. Ou lua crescente que minguou sozinha.
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Nos descaminhos do sangue, fez-se a curva: e então era uma tela manchada em rubros espirais. Tudo devastava as calçadas e os paralelepípedos desfiladeiros que derrapavam até você. E foi naqueles corredores infinitos que busquei seus olhos. Que busquei capturar a verdade aguada de sua doença. Tentei, tentei, busquei a resposta com cada milímetro de minha ciência. Que era ciência mundana. Acontece que eu nunca fui capaz de ensinar coisa alguma, porque tudo em mim vazava. Tão logo a palavra se fazia certa, o sangue em redemoinho murmurava quente e desembestava em jorros-fúrias. E tudo o que se ouvia era nada. E eu, dada a querer conhecer os mecanismos tortos das prisões, demorei a me dar conta de que você voava. Foi um susto. E era uma coisa o seu vôo! Dele eu saboreei toda a acidez no corte fundo de minha língua ardente. Ardia-me inteira, simples, incompleta, como se uma perigosa compreensão tomasse conta de mim. Uma compreensão nova, um ineditismo de saber. Que não era um sacro-saber que poderia ser bem esquematizado em folhas brancas. Era coisa aberta que me confundia, que se estremecia na alegria impossível do sofrimento, era uma dor aguda que se transmutava em gozo, era o silêncio sábio do que ainda não fez erupção. Porque quem voava era você. Eu era apenas um desejo trêmulo que balançava diante de.
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Era a luz intensa do seu silêncio ritmado. Sempre me perguntei se era tão necessário apertarmos as mãos. Mas eu tinha confiança naquilo. Naquele ritmo, naquela luz, naquele vazio. Acima de tudo, eu gostava do sossego. Queria me fazer compreender, explicar que mudança não significa, necessariamente, deslocamento contínuo. Há movimento no simples estremecer do arrepio da pele. Eu era nômade deitada, amolecida, ouvindo os sons de um dia morno e rabiscando destinos. Eu era nômade estatelada. Por vezes urrando. Mas ali. No surdo movimento do sexo: vai-e-vem-vai-e-vem, e às vezes as asas. Aquele vôo rasante de nossas idiossincrasias. E, porque tudo era tão tolo, de repente era possível rir. Gargalhar de tanto cansaço, tanto cansaço de coisa pouca, de tanto samba e amor até mais tarde e de todo aquele sono de manhã. Ócio, preguiça, malandragem. A brisa das tardes e algum pensamento. Era a luz intensa do silêncio ritmado. O ritmo vai-e-vem dos calores úmidos. Alguma coisa um pouco tropical, um tanto bela, quase incerta. Era o ritmo do instante. Que não tem pecado, porque evapora…
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Era nada, senão as asas.
As asas de seus corpos dançantes; era música. E musicalmente entoavam meus próprios gritos, me faziam louca, me contavam a história sem verbos, a história de um corpo livre. Não sei repeti-la aqui, é óbvio. Era história de ondas e curvas, vento e carne, era história de um nunca. Dançamo-nos em bando como se nos amássemos e, de fato, amávamo-nos. Amávamo-nos em mordidas e em compaixão, como se jamais. Como se. E as flores e as baratas e os terraços e as lembranças – e tudo era varrido da perda de cada uma, e as perdas se faziam cicatrizes a as cicatrizes se desenhavam máscaras e as máscaras se inventavam contos e livros e bibliotecas infinitas feitas de ruídos.
Era nada, senão as vozes. Mesmo as mudas.
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Era despudorada aquela minha vontade. De ouvir os segredos duros da mulher silenciosa. E ela palpitava em silêncio, a alma aos gritos. O rosto era arredondado, os olhos escuros, e tinha os lábios carnudos. Havia quem dissesse que os traços eram grosseiros, outros sequer notavam. A quem desejasse ver, no entanto, aquele rosto era puro gozo de entardecer. Era desejo. Criava filhos. Três ou quatro, não me lembro bem. Abocanhava os detalhes do dia com vigor e o trabalho na casa cheirava ao mais fino dos cuidados. O filho mais novo a queria bem, o mais velho sonhava longe, a do meio cantava ao anoitecer. Talvez houvesse um quarto filho, diagnosticado com algum problema que ninguém além dos médicos compreenderia ao certo. Ela se espremia em silêncios e vontades que mal conhecia: e trabalhava dia e noite ao infinito. A casa, o chão, a feira, a rua, os postes, a lua, a água na calçada. O mundo escada abaixo, as pernas cansadas, os filhos distraídos, o tempo que passava. Um bêbado, um homem, um medo. Aqueles contos de sei lá quando contados pela professora das séries iniciais que havia cursado. Tempos antigos de escola. Era bom saber que ainda sabia ler. Algumas cartas eram importantes. Outras de nada valiam. O vento lhe comia os dentes e os sonhos, mas quase sempre havia um pouco de música. Raramente havia dança. Era mulher silenciosa. Tinha uns poucos estranhos medos que a impediam de enxergar a coragem. Achava que ter levado a vida até ali não era mais do que sua obrigação. Acreditava que a roupa lavada era o destino. Por isso, nem por um segundo, exigia reconhecimento, gratidão ou glória.
Era despudorada minha vontade. De me desepejar no segredos abertos dela: segredos que saberiam cantar sem pudores a assustadora melodia de meus obscuros. De nossas algemas.
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