Lua nova, estrela guia, Lola desconhecia a própria idade. Parecia às vezes que minguava de juventude, mesmo que suas belas avantajadas formas contassem história de uma vida longa, vivida, marcada nas linhas do rosto. “Jovens são minguantes, não crescentes” – afirmava ela com toda sua sabedoria lunar. Porque a juventude lhe sugava a concretude do corpo e fazia com que, a cada estalo de desejo, parecesse que a morte estava a rondar. Lola era uma cidade inteira sob o céu estrelado, marcada por luzes, labaredas, brita e medo. Alguma vontade forte, intensa, e o resto era uma perigosa imensidão. Lola um dia foi levada de carro para o abrigo dos loucos. E foi lá que o tempo dançou insano e ela nunca mais soube o ano, o mês ou o dia da semana. Curiosamente conhecia as horas, que eram horas de sua derradeira rejuvenescência. De mulher marcada ganhou os contornos de uma bela jovem e visitou bailes, homens, namorados. Não quis casar, que era cansativo, e a bela jovem se tornou mocinha, de 15 anos e desengonçada. Sorria aflita em seu corpo lúcido e corria firme com suas pernas livres. De mocinha a pré-púbere, cada vez mais nova, Lola se tornou Lolita e bebê sem colo. E em novembro de seu aniversário terminou o tempo do qual ela era dona. Há quem diga, sem saber, que morria ali uma velhinha torta. Só Lola sabia da dor de ser criança morta. Ou lua crescente que minguou sozinha.
Nos descaminhos do sangue, fez-se a curva: e então era uma tela manchada em rubros espirais. Tudo devastava as calçadas e os paralelepípedos desfiladeiros que derrapavam até você. E foi naqueles corredores infinitos que busquei seus olhos. Que busquei capturar a verdade aguada de sua doença. Tentei, tentei, busquei a resposta com cada milímetro de minha ciência. Que era ciência mundana. Acontece que eu nunca fui capaz de ensinar coisa alguma, porque tudo em mim vazava. Tão logo a palavra se fazia certa, o sangue em redemoinho murmurava quente e desembestava em jorros-fúrias. E tudo o que se ouvia era nada. E eu, dada a querer conhecer os mecanismos tortos das prisões, demorei a me dar conta de que você voava. Foi um susto. E era uma coisa o seu vôo! Dele eu saboreei toda a acidez no corte fundo de minha língua ardente. Ardia-me inteira, simples, incompleta, como se uma perigosa compreensão tomasse conta de mim. Uma compreensão nova, um ineditismo de saber. Que não era um sacro-saber que poderia ser bem esquematizado em folhas brancas. Era coisa aberta que me confundia, que se estremecia na alegria impossível do sofrimento, era uma dor aguda que se transmutava em gozo, era o silêncio sábio do que ainda não fez erupção. Porque quem voava era você. Eu era apenas um desejo trêmulo que balançava diante de.
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Era a luz intensa do seu silêncio ritmado. Sempre me perguntei se era tão necessário apertarmos as mãos. Mas eu tinha confiança naquilo. Naquele ritmo, naquela luz, naquele vazio. Acima de tudo, eu gostava do sossego. Queria me fazer compreender, explicar que mudança não significa, necessariamente, deslocamento contínuo. Há movimento no simples estremecer do arrepio da pele. Eu era nômade deitada, amolecida, ouvindo os sons de um dia morno e rabiscando destinos. Eu era nômade estatelada. Por vezes urrando. Mas ali. No surdo movimento do sexo: vai-e-vem-vai-e-vem, e às vezes as asas. Aquele vôo rasante de nossas idiossincrasias. E, porque tudo era tão tolo, de repente era possível rir. Gargalhar de tanto cansaço, tanto cansaço de coisa pouca, de tanto samba e amor até mais tarde e de todo aquele sono de manhã. Ócio, preguiça, malandragem. A brisa das tardes e algum pensamento. Era a luz intensa do silêncio ritmado. O ritmo vai-e-vem dos calores úmidos. Alguma coisa um pouco tropical, um tanto bela, quase incerta. Era o ritmo do instante. Que não tem pecado, porque evapora…
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Era nada, senão as asas.
As asas de seus corpos dançantes; era música. E musicalmente entoavam meus próprios gritos, me faziam louca, me contavam a história sem verbos, a história de um corpo livre. Não sei repeti-la aqui, é óbvio. Era história de ondas e curvas, vento e carne, era história de um nunca. Dançamo-nos em bando como se nos amássemos e, de fato, amávamo-nos. Amávamo-nos em mordidas e em compaixão, como se jamais. Como se. E as flores e as baratas e os terraços e as lembranças – e tudo era varrido da perda de cada uma, e as perdas se faziam cicatrizes a as cicatrizes se desenhavam máscaras e as máscaras se inventavam contos e livros e bibliotecas infinitas feitas de ruídos.
Era nada, senão as vozes. Mesmo as mudas.
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Era despudorada aquela minha vontade. De ouvir os segredos duros da mulher silenciosa. E ela palpitava em silêncio, a alma aos gritos. O rosto era arredondado, os olhos escuros, e tinha os lábios carnudos. Havia quem dissesse que os traços eram grosseiros, outros sequer notavam. A quem desejasse ver, no entanto, aquele rosto era puro gozo de entardecer. Era desejo. Criava filhos. Três ou quatro, não me lembro bem. Abocanhava os detalhes do dia com vigor e o trabalho na casa cheirava ao mais fino dos cuidados. O filho mais novo a queria bem, o mais velho sonhava longe, a do meio cantava ao anoitecer. Talvez houvesse um quarto filho, diagnosticado com algum problema que ninguém além dos médicos compreenderia ao certo. Ela se espremia em silêncios e vontades que mal conhecia: e trabalhava dia e noite ao infinito. A casa, o chão, a feira, a rua, os postes, a lua, a água na calçada. O mundo escada abaixo, as pernas cansadas, os filhos distraídos, o tempo que passava. Um bêbado, um homem, um medo. Aqueles contos de sei lá quando contados pela professora das séries iniciais que havia cursado. Tempos antigos de escola. Era bom saber que ainda sabia ler. Algumas cartas eram importantes. Outras de nada valiam. O vento lhe comia os dentes e os sonhos, mas quase sempre havia um pouco de música. Raramente havia dança. Era mulher silenciosa. Tinha uns poucos estranhos medos que a impediam de enxergar a coragem. Achava que ter levado a vida até ali não era mais do que sua obrigação. Acreditava que a roupa lavada era o destino. Por isso, nem por um segundo, exigia reconhecimento, gratidão ou glória.
Era despudorada minha vontade. De me desepejar no segredos abertos dela: segredos que saberiam cantar sem pudores a assustadora melodia de meus obscuros. De nossas algemas.
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Você.
Você diz “doutora” num pesado apelo: é como se eu soubesse de algo que você não. Então eu me sinto desmanchar inteira, por baixo do fino opaco véu que reveste meu corpo liquefeito. “Doutora não” – imploro secreta, na ânsia de vida. Doutourar é dizer a palavra certa, que é sempre palavra morta. Tudo o que é certo já morreu, posto que encerrado; vive aquilo que se desdobra, que se reparte, aquilo que despedaça, que derrete, derrama e continua. Dia desses eu comi um pedaço da sua angústia. Veio-me rude, corpórea, maciça, e afrontou minhas vísceras no calor de você. Tornávamo-nos, então, pedra e pétala, e indiferenciávamo-nos na dureza de sua muscularidade misturada ao suave de minha carne. De nossa antiguidade extraíamos essência nenhuma: ali era a angústia. Sem espaço para uma palavra que nos unisse em compreensão possível. Éramos olhos, faringes, lábios, úteros, duodenos, e a estranha vergonha dos dizeres vazios. Eu temia as palavras, limpa que estava. Você as jorrava dramático feito um filme em cores quentes. Encabulada, eu escondia minha nudez não depilada e minha ânsia de poesia e fúria. Você cantava. Cantava a dor inerte dos desesperançosos. Acorrentado nos braços, eu na alma. Pouca coisa entre nós se fazia compreensível. Talvez apenas a minha secreta vontade de que você voasse. Quem sabe também o seu surdo murmúrio de paranoia e amor, aflito em sangue invisível, certo como se respira. Era a silenciosa semelhança que nos fazia carne, essa carne mágoa que, torta, brotava-se humana. Eu queria pecar contra a ciência por você. Eu queria pecar contra a certeza por você. Minto: eu queria era pecar contra a verdade. E não por você: por mim. Eu queria um pecado enorme, contra as paredes. Por nós. Todos.
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Era um fio delicado e invisível e eram coleções infinitas, impossíveis. A casa dele era uma casa móvel, carregada de um canto a outro, e por vezes bem alto no céu, tudo ao sabor de seus ventos – frágeis ventos infantes que o desenhavam menino. Os pés eram grandes, os olhos dançantes, o mundo para ele era a casa e os ruídos insones da televisão ligada. Raramente o vimos nas ruas depois das seis da tarde. Às vezes ele saía e seus passos eram um desarticulado perambular. Saía com a mãe, seu desassossego pleno. Jamais se desmanchava de amores: escondia-se. Lá dentro o coração descompassava uma música suave arranhada pelos sons do jornal da noite e ele conhecia todas as notícias que o mundo lhe trazia. Desconfiava delas e então buscava recortá-las e costurá-las. Era um tecelão de verdades despedaçadas: fazia para si um mundo que destronava todos os senhores e todas as certezas e se reinventava nos novos remendos. Não era um mundo fácil, sequer legível. Sua língua era de outros universos e sua solidão falava um pouco da nossa, embora jamais ousássemos admitir. Éramos tolos em nossas certezas e temíamos o abismo fundo de seus detroços. Tudo no mundo é despedaçado, mas nós queríamos nos acreditar inteiros. Ele não.
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Não sei quem amansou o rio manso. Só sei que tenho medo. Medo de todas essas águas calmas que, silenciosas, obrigam-nos a adivinhar a melodia que antecipam. Eu ouço o futuro nas batidas do coração dele e, de repente, sou noivinha em paz e sonolenta. Queria saber vestir essa fantasia, essa leveza, naquele vestido amarelo já gasto de tanto voar. Mas minha tempestade é muita, é toda: não é grandiosa como um futuro brilhante, como o sucesso dos deuses, mas é trovoada de meter medo e de fazer criança se esconder no cobertor. Eu queria, eu queria, eu queria contar o que provoca minha lágrima pesada quando quase adormeço sem sonhar. Queria saber explicar esse riso, esse zelo, essa raiva; queria poder explicar porque é que as coisas se tornam sempre maiores do que são: estou sempre a ver montanhas e a espreitar multidões enevoadas que cantam aflitas as vozes do mundo. Queria o secreto dom de fazer um bordado e, no fim das contas, ser simplesmente um bom colo feminino para repouso. Mãe, mulher, noiva, esposa. As feras, no entanto, abrem-se aflitas num vão profundo. Tudo se torna grande, quente, terrível, eterno. Eu vejo altares de fogo e me prostro até queimar: a tempestade passou e o delicado vestido amarelo tomou as formas rudes de minha nudez. Imploro então – feito menina - por uma ternura fina que remonte ao colo do meu avô. Época em que sonhava ser mulher, princesa, noiva…
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Fonte: http://fotologando.blogspot.com/
Não é o começo, o fim, ou qualquer espaço no meio do caminho. É um balançar do tempo, nas ondas do mar, no desabar de folhagens ao vento. É um balanço do silêncio, Rebeca, um balanço profundo no fundo de seus ouvidos. É a minha voz, Rebeca, infinitamente rouca, e o meu sangue fino desandando ao luar. O trilhar do sangue é sempre tempestade e, longe da ciência, sangrar é rubrar. Rubramo-nos, Rebeca, porque é necessário. Hoje o dia está límpido, certo e bem feito: nem parece que existem desastres, nem parece que as coisas se quebram. Mas nós duas sabemos que os laços se rompem e que as solidões se fazem tristes, cada qual aos pedaços. Sabemos também que cada melancolia é uma melodia desenhada nos pés descalços do menino que corre ou nas mãos apressadas da mulher aflita. Temos o costume de olhar nos olhos e acabamo-nos por esquecer a beleza anônima das mãos que repousam, trabalham, mexem, acariciam, pedem. Mãos pedintes com vontade própria, pés dançantes num baile sem fim. E ombros tortos, barrigas entregues, ventres cheios, bocas vazias, toques inertes e nucas bem feitas. Olhamos nos olhos na busca de captar um pedaço humano ou divino, um aconchego pleno, uma resposta certa. Aprofundamo-nos no olhar em busca do amor. E nos esquecemos dos movimentos leves do mundo sem nome, do corpo animal de tudo o que é humano, de nossa predatória vida nas cidades, do doce balançar nas praças das crianças. Aflitivo, Rebeca, esse mundo inumano que nos percorre, esse traço invisível que nos escreve, o silêncio maldito que nos acalenta, as feras mansas como um fim de tarde e que só olham nos olhos para dar o bote. Tudo é dança, querida. Orquestra do mundo. Arranhando sons que sempre nos escapam.
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Mas nada nesse mundo se assemelha à névoa que, desentendida, cobre a superfície do espelho. É névoa do olhar fino e desenhista, que faz pelo traçado do tempo o traçado do rosto, do corpo, do fundo da sala que ali se projeta. É o fundo do passado, das saudades, do peso de todas as civilizações e da força do bárbaro, é o fundo do infinito, macho e fêmea, da falta de um nome para se dar as coisas. A névoa nega as palavras e se desmancha no absurdo do sonho, em um despedaçar esquizofrênico que borda verdades nos retalhos do que se vê. Já vi mulher, homem, criança, já fui capaz de ver um monstro e, certa vez, fechei os olhos de pavor e desisti de ver. Ah, névoa louca, da beleza jamais notada, dos desatinos revisitados, das quebras sem chance, da fêmea impossível, do riso estático. Névoa molde guardada no passado dos mundos que povoam recordações. Sou urbana, tímida, infinita, fechada entre muitas paredes de portas abertas para o céu. Lá em cima vive um espelho que respira todos os séculos. Cá embaixo as névoas inventam o caminho dos tempos que passam.
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